Antropologia Bíblica: algumas implicações

Introdução

Nesse ensaio pretendemos falar sobre a natureza humana e sua situação “caída” em pecado. Abraçamos o entendimento paulino conforme se ver em sua admoestação presente em sua Epístola aos Efésios: “Não andeis mais como andam também os outros gentios, na vaidade da sua mente. Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração;” (Efésios 4:17-19. ACF). Essa é a descrição do ser humano em sua atual condição, longe daquilo que Deus pretendeu para ele.

Em seu livro Teologia Puritana, Joel R. Beeke assim comenta em relação ao entendimento geral dos puritanos sobre o tema supracitado:

Com frequência, autores puritanos citavam as palavras de Eclesiastes 7.29 — “Deus fez os homens justos, mas eles buscaram muitas complicações” — à medida que expunham suas percepções de como o homem havia caído do topo da inocência no abismo do pecado, para então ser erguido a alturas ainda maiores pela graça de Deus por intermédio de Jesus Cristo.[1]

Pretendemos, também, relacionar a doutrina do homem (antropologia) a alguns outros temas, demostrando a relação entre as disfunções da sociedade e o ser humano em pecado como a principal “mola motriz” para tal.

 

1. O que é Antropologia Bíblica?

A Antropologia Bíblica é o estudo da natureza humana à luz das Escrituras Sagradas. Ela trata de questões como a origem do ser humano, sua natureza e propósito, sua relação com Deus e com o mundo.

Segundo a Bíblia, o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1:26-27). Compreender que somos feitos à imagem de Deus é essencial para compreender nosso destino e nossa relação com Deus. Segundo Bruce Waltke, “nosso ser e função provêm da imagem de Deus. Como representantes espelhando a Deus e bafejando a vida de Deus, podemos viver em relação com ele e exercer nosso domínio sobre toda a terra.[2]” Essa é uma descrição muito elevado e equilibrada do ser humano.

De acordo com Louis Berkhof, “o homem não é somente a coroa da criação, mas também é objeto de um especial cuidado de Deus.[3]” Isso significa que os seres humanos têm uma natureza especial e única, que os distingue de todas as outras criaturas na terra. Eles têm capacidade para pensar, raciocinar, criar, amar e se relacionar com Deus e com outras pessoas. Além de ser, em si mesmo, um ser criado pelas próprias “mãos” de Deus, o que demonstra, em essência, sua importância e dignidade.

No jardim do Éden, Adão e Eva foram feitos à imagem de Deus, “tendo a lei de Deus escrita em seus corações e o poder de cumpri-la”[4]. Eles refletiam Deus na semelhança moral e estavam livres de pecado.

 

2. A Queda

No entanto, a Bíblia também ensina que o ser humano é caído e pecador. Desde a queda de Adão e Eva no jardim do Éden, todos os seres humanos têm sido afetados pelo pecado e suas consequências (Romanos 3:23). O pecado trouxe consequências.

Segundo Heber Campos, “Deus apresentou uma razão para trazer maldição sobre Adão. Sempre a manifestação da justiça divina tem uma causa no homem: o pecado[5]”. Isso significa que os seres humanos estão em uma condição de separação de Deus e precisam de salvação para se reconciliar com Ele. Em conformidade com isso, Millard Erickson comenta:

O retrato bíblico da espécie humana revela que ela atualmente se encontra em uma condição de anormalidade. O verdadeiro ser humano não é aquele que vemos na sociedade, mas o que veio das mãos de Deus, livre da corrupção do pecado e da Queda. Em um sentido bem real, os únicos seres verdadeiramente humanos foram Adão e Eva, antes da Queda, e Jesus. Todos os outros são exemplos distorcidos e corrompidos de humanidade. Portanto, se quisermos avaliar corretamente o que significa ser humano, é necessário olhar para o estado original do homem e da mulher e para Cristo.[6]

A primeira grande desgraça da raça humana aconteceu ainda dentro do lugar santo, no jardim de Deus, com a morte do primeiro homem. A morte de Adão por causa do pecado foi inevitável. A morte foi inevitável porque ele pecou. A morte foi inevitável porque Deus é verdadeiro.

Dessa forma, vemos aqui como é importante conhecer o que a Bíblia diz a respeito do ser humano e compreender a natureza humana e sua relação com Deus. Ela nos ensina que os seres humanos são criaturas especiais, criadas à imagem e semelhança de Deus, mas que também são pecadores e precisam da salvação em Cristo para se reconciliarem com Deus.

No século XVII, o grande filósofo Blaise Pascal escreveu: “Que tipo de anomalia é o homem?! Quão novo, quão monstruoso, quão caótico, quão paradoxal, quão prodigioso, juiz de todas as coisas, verme frágil, repositório da verdade, mergulhado em dúvida e erro, glória e refugo do universo”.[7] Que belo equilíbrio. Compreender isso é também compreender a doutrina da depravação total.


3. Depravação Total

O que aconteceu no Éden é chave para entendermos a condição atual do homem. De acordo com Heber Campos, “Adão é considerado na Escritura o protótipo de toda a humanidade, e seu pecado está intimamente relacionado com a sua descendência, pois ele agiu não como um homem particular, mas como o representante da raça, por causa da relação pactual[8]

Também a Confissão de Fé de Westminster diz algo importante sobre a consequência do pecado dos primeiros pais para eles próprios:

Por este pecado eles decaíram da sua retidão original e da comunhão com Deus, e assim se tornaram mortos em pecado e inteiramente corrompidos em todas as suas faculdades e partes do corpo e da alma (V, ii)[9]

Disso resulta, também, a doutrina da Depravação Total. A doutrina reformada da depravação total ensina que a totalidade do ser humano, ou seja, cada parte dele foi afetada pela queda. Não sobrou um só compartimento do ser humano que não tenha sofrido os efeitos da corrupção. O mesmo podemos dizer da criação. Por isso Paulo fala que “toda a criação geme e suporta angústias até agora”.

A doutrina da depravação total é uma das doutrinas fundamentais da teologia reformada e afirma que a natureza humana está completamente corrompida pelo pecado original e, portanto, todas as pessoas estão espiritualmente mortas e incapazes de se aproximar de Deus ou fazer algo bom e agradável a Ele por conta própria.

Tal doutrina, encontra-se entre o que chamamos de “Cinco Pontos do Calvinismo" ou a "Doutrinas da Graça". Eles são resumidos pela sigla TULIP, que representa:

1.    Depravação Total (Total Depravity) - A crença de que todos os seres humanos são pecadores e estão totalmente corrompidos pelo pecado, o que significa que eles são incapazes de se salvar a si mesmos e de fazer algo bom e agradável a Deus por conta própria.

2.    Eleição Incondicional (Unconditional Election) - A crença de que a salvação é inteiramente um ato da graça de Deus e que Ele escolheu algumas pessoas para serem salvas antes mesmo de criá-las, independentemente de qualquer mérito humano.

3.    Expiação Limitada (Limited Atonement) - A crença de que a morte de Jesus Cristo na cruz foi destinada apenas para aqueles que Deus escolheu para a salvação e não para toda a humanidade.

4.    Graça Irresistível (Irresistible Grace) - A crença de que a graça de Deus é tão poderosa que quando Ele chama uma pessoa para a salvação, ela não pode resistir a Ele.

5.    Perseverança dos Santos (Perseverance of the Saints) - A crença de que aqueles que foram escolhidos por Deus e receberam a salvação não podem perdê-la, mas serão mantidos por Deus até o fim.

A doutrina da depravação total é importante porque ajuda a explicar a natureza humana e a necessidade da salvação. Ela enfatiza a incapacidade humana de fazer algo para se salvar e a necessidade da graça de Deus para a salvação. Além disso, a doutrina da depravação total destaca a necessidade de uma intervenção divina para transformar as pessoas e capacitá-las a fazer o bem e agradar a Deus.

Os seres humanos foram criados bons, mas por causa da queda, a imagem de Deus tornou-se danificada: por meio da obra de Jesus Cristo, Deus redime seu povo eleito.

A tendência do ser humano natural é negar tal doutrina. Desde Platão, grande maioria dos filósofos tendem a negar a importância ou a realizada de tal ensino. Segundo Strong, “Platão reduz o mal moral à categoria de mal natural. Ele deixa de reconhecer Deus como o criador e senhor da matéria; deixa de reconhecer a depravação do homem devida à sua própria apostasia de Deus.[10]

Essa doutrina é baseada na visão bíblica de que a humanidade caiu em pecado por meio de Adão e Eva e, desde então, todas as pessoas nascem com uma natureza corrompida e inclinada ao pecado.

Essa corrupção se estende a todos os aspectos da pessoa, incluindo sua mente, emoções, vontade e capacidade de tomar decisões. De acordo com a doutrina da depravação total, a corrupção do pecado é tão profunda que ninguém pode fazer qualquer coisa para agradar a Deus ou salvar a si mesmo. De acordo com Wayne Grudem:

A história da raça humana que se apresenta nas Escrituras é primordialmente a história do homem num estado de pecado e rebelião contra Deus e do plano redentor de Deus para levar o homem de volta a ele [...] O pecado se opõe diretamente a tudo o que é bom no caráter de Deus, e assim como Deus necessária e eternamente se deleita em si mesmo e em tudo o que ele é, também necessária e eternamente detesta o pecado. E, em essência, a contradição da excelência do caráter moral de Deus. Contradiz a sua santidade, e, portanto, ele tem de detestá-lo.[11]

A depravação é “total” no sentido de que afeta todas as partes de nosso ser. Afeta a carne, o espírito, a mente, as emoções, os desejos, os motivos e a vontade, juntos. “Depravação Total não significa que o homem é tão mal quanto poderia ser, mas que o homem não regenerado é incapaz de buscar a Deus ou de praticar qualquer bem espiritual.”[12] Conforme Beeke e Jones:

Pecados reais são transgressões pessoais da lei de Deus, seja por pensamento, seja por palavra, seja por ação. Nisso os puritanos eram cem por cento agostinianos, entendendo que o pecado incluía toda obra, palavra e desejo contrários à lei de Deus.[13]

Segundo João Calvino “em cada época, existem pessoas que, guiadas por natureza, se empenham pela virtude durante toda a vida”[14]. Ele sugeriu que tais pessoas (“embora haja lapsos… em sua conduta moral”)[15] possuem caráter recomendável, conforme o ponto de vista humano. “Por meio do próprio zelo de sua honestidade, elas têm dado provas de que há alguma retidão em sua natureza.”[16] Ele foi mais além: “Esses exemplos parecem advertir-nos contra o sentenciarmos a natureza do homem como totalmente corrupta, porque alguns homens têm, por seu impulso, não somente sido excelentes em obras notáveis, mas também se comportado de maneira honrosa durante a vida”.[17] Assim, o homem não é tão mal quanto poderia ser, mas é incapaz de buscar a Deus.

Dessa forma, como resultado da depravação total, todos estão espiritualmente mortos e separados de Deus. Apenas e somente a graça de Deus pode salvar uma pessoa da sua condição de pecado e morte espiritual, e isso é feito por meio da fé em Jesus Cristo.

Essa doutrina é importante também para o entendimento das ações humanas porque ela ajuda a explicar a condição humana de pecado e a necessidade da salvação em Jesus Cristo. A doutrina da depravação total afirma que todos os seres humanos são pecadores e incapazes de salvar a si mesmos, o que significa que a salvação só pode ser alcançada pela graça de Deus através da fé em Jesus Cristo.

Além disso, a doutrina da depravação total nos ajuda a entender que todas as nossas ações, mesmo as que parecem boas, são afetadas pelo pecado. Isso significa que, sem a intervenção da graça de Deus, todas as nossas ações são motivadas pelo egoísmo e pela busca do próprio interesse, e não pela glória de Deus.

 

Conclusão

Uma das implicações mais importantes da doutrina da depravação total é a ideia de que as pessoas não são capazes de mudar suas próprias vidas sem a ajuda de uma força externa, como Deus. Isso significa que a psicoterapia e outras abordagens terapêuticas que enfatizam a capacidade humana de autoaperfeiçoamento podem ser vistas como limitadas ou até mesmo fúteis.

Tal compreensão pode influenciar a maneira como os psicólogos entendem o comportamento humano. Se a natureza humana é vista como intrinsecamente corrompida então as técnicas de tratamento psicológicos devem levar isso em consideração.

Assim, a doutrina da depravação total tem implicações significativas para a psicologia moderna, especialmente em relação à visão da capacidade humana de mudança e autoaperfeiçoamento.

O entendimento dessa doutrina, nos habilita a entendermos melhor os problemas que sempre aparecerem nas relações interpessoais. O casamento, por exemplo, após a queda, tornou-se um árduo relacionamento. Esse problema na relação conjugal, segundo Tim Keller, deve-se “a condição de “falidos espiritualmente” dos cônjuges, seus sentimentos depravados, o que em outras palavras significa que são egoístas e vivem incurvatus in se [curvado sobre si mesmo][18]

Por fim, a doutrina da natureza humana e sua situação atual caída, realça a importância e sublimidade do evangelho de nosso Senhor. Nesse sentido Franklin Ferreira e Alan Myatt comentaram: “As doutrinas da queda, da eleição e da justificação são importantes. Ao estudar a doutrina da queda veremos que o pecador não é capaz de responder à luz da revelação geral de uma maneira positiva. A doutrina de eleição nos mostra que Deus ordena meios adequados para salvar todo o seu povo eleito. A pregação do evangelho é o meio ordenado.[19]

Em resumo, a doutrina da depravação total é importante para o entendimento das ações humanas porque nos ajuda a compreender a condição humana de pecado e a necessidade da salvação em Cristo, bem como a reconhecer que todas as nossas ações são afetadas pelo pecado e precisam da graça de Deus para serem transformadas e direcionadas para a Sua glória.

Bibliografia

 

Beeke, J. R., & Joncs, M. (2016). Teologia puritana: doutrina para a vida. São Paulo: Vida Nova.

Berkhof, L. (1990). Teologia Sistemática. São Paulo: Editora Cultura Cristã.

Calvino, J. (2006). Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Cultura Cristã.

Campos, H. C. (2012). O habitat humano : o paraíso perdido. São Paulo: Hagnos.

Confissão de Fé de Westminster. http://monergismo.com/textos/credos/cfw

Erickson, M. J. (2015). Teologia sistemática. São Paulo: Vida Nova.

Ferreira, F., & Myatt., A. (2007). Teologia sistemática: : uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova.

Gandolfo, R. (2019). As Doutrinas da Graça em versículos (Depravação Total). Voltemos ao Evangelho.

Grudem, W. (2012). Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova.

Keller, T. (2014). O Significado do Casamento. São Paulo: Vida Nova.

Pascal, B. (1995). Pensamentos. São Paulo: Penguin.

Strong, A. H. (2003). Teologia sistemática. São Paulo: Hagnos.

Waltke, B. K. (2001). Comentário de Gênesis. São Paulo: Editora Cultura Cristã.

 



[1] Joel R. Beeke e Mark Jones, Teologia puritana: doutrina para a vida. São Paulo: Vida Nova, 2016. P. 296

[2] Waltke, Comentário de Genesis, 2001. P. 265

[3] Berkhof, Teologia Sistemática, 1990, P. 173.

[4]Confissão de Fé de Westminster, 4.2. retirado do site: http://monergismo.com/textos/credos/cfw.htm

[5] Campos, O habitat humano : o paraíso perdido. Hagnos. 2012. P. 214

[6] Erickson, Teologia Sistemática, 2015, p. 445

[7] Blaise Pascal, Pensamentos, 1995. p. 34.

[8] Campos, O habitat humano : o paraíso perdido. Hagnos. 2012. P. 162

[9]Confissão de Fé de Westminster, 5.2. retirado do site: http://monergismo.com/textos/credos/cfw.htm

[10] Augustus Hopkins Strong. Teologia sistemática. São Paulo. Hagnos, 2003. P. 270.

[11] Wayne Grudem. Teologia Sistemática. Vida Nova. 2012 Pág. 432

[12] Site: Voltemos ao Evangelho. As Doutrinas da Graça (Depravação Total). Por Renata Gandolfo em 4 dez, 2019

[13] Joel R. Beeke e Mark, Teologia puritana: doutrina para a vida. São Paulo: Vida Nova, 2016. P. 304

[14] João Calvino, Institutas da Religião Cristã. Cultura Cristã. 2006. 2.3.3

[15] Ibid., Ênfase acrescentada por mim.

[16] Ibid.

[17] Ibid.

[18] Keller, O Significado do Casamento, 2014. P. 50

[19] Ferreira & Myatt., Teologia Sistemática, 2007. P. 109

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