Exegese de Tito 2:11-14

Sumário

1.          Introdução. 4

2.          Confirmando os limites da passagem.. 6

3.          Dominando a perícope em estudo. 6

4.          Analisando a estrutura das frases e as relações sintáticas. 7

4.1.     Fluxograma (Português) 7

4.2.     Fluxograma (Grego)

5.          Estabelecendo o texto. 13

6.          Análise Gramatical 14

7.          Analisando Palavras Significativas. 22

8.          Contexto Histórico-Cultural em Geral 28

9.          Determinando as Características Formais da Epístola. 31

10.       Examinando o Contexto Histórico em Particular. 32

11.       Determinando o Contexto Literário. 33

12.       Considerando os contextos bíblicos e teológicos mais amplos. 35

13.       Conclusão. 37

Bibliografia. 39

 

 

 


 

1.   Introdução[1]

A epístola de Paulo a Tito faz parte, juntamente com 1ª e 2ª Timóteo, das cartas Pastorais, termo que, segundo Kelly, fora cunhado e utilizado com referência a essas três cartas “desde o início do século XVIII, porque estão endereçadas a pastores e, em grande medida, dizem respeito aos deveres deles.” (Kelly J. N., 2009).  Tais deveres diziam respeito, principalmente, a supervisão da comunidade, função exercida por um “epíscopo”, título que, de acordo com Bultmann, não era atribuído “diretamente aos apóstolos, atuantes em seu tempo como funcionários de comunidades, mas intercalado, como elo intermediário, aos discípulos dos apóstolos, Timóteo e Tito.’’ (Bultmann, 2008). Dessa forma, Timóteo e Tito constituem o que Vielhauer chamou de “os mediadores - na ficção em termos de espaço, na realidade em termos de tempo - entre ele e a Igreja, [...] os portadores da tradição apostólica; [...] os que preservam, administram e transmitem a tradição recebida. (Vielhauer, 2005); já Köstenberger é da opinião de que “o papel de Timóteo e Tito não era realmente o de pastor permanente e residente em uma igreja. Em vez disso, esses dois homens serviram como delegados apostólicos de Paulo que foram temporariamente designados para sua localização atual para lidar com problemas específicos” (Köstenberger, 2003)

Com relação a data das epístolas pastorais, bem como a diferença perceptível dos assuntos em pauta nas pastorais com relação as demais cartas paulinas, Bruce afirma que “é possível datar as epístolas pastorais por cerca de 63-64 d.C. E a mudança do Estado de coisas testemunhada pelas igrejas Paulinas teria ocorrido em parte pela oportunidade que o primeiro aprisionamento de Paulo proporcionou a seus adversários nessas igrejas” (Bruce, 2010)

Até onde podemos investigar, Tito era provavelmente mais velho do que Timóteo (Tt 2:15). Ele também, de acordo com Fee, “parece ter tido um temperamento mais forte. (Fee G. D., 1988). Segundo Thielman, Tito era “o colaborador grego de Paulo. Aquele que portava a carta severa aos coríntios” (Thielman, 2007). Paulo o havia deixado na ilha de Creta com o fito de resolver problemas administrativo-eclesiásticos, e a presente epístola objetivava ser um guia nessa empreitada. Assim, “como os antigos mandatos reais, essa carta de Paulo a Tito é de um superior a um subordinado, a quem se entrega a responsabilidade de algum grupo social” (Thielman, 2007)

Conforme o Dicionário Bíblico Wycliffe, Creta era “a quarta maior ilha do Mediterrâneo. Localizada a aproximadamente 100 quilômetros ao sul do Cabo Málea no Peloponeso e 180 quilômetros a oeste do cabo Krio na Ásia Menor, Creta se tornou um centro de distribuição e o berço das culturas do Oriente Próximo do quarto até o primeiro milênio a.C, compreendendo uma área de aprox. 8200 km².” (Charles F. Pfeiffer, 2011), no entanto, tal magnitude e importância cultural, não a eximiu dos maus estigmas morais. Tal verdade é percebida no fato de Paulo citar um dos filósofos de Creta, Epimênides (aprox. 600 a.C.) que falou sobre seus compatriotas.: “Os cretenses são sempre mentirosos, bestas ruins, ventres preguiçosos” (Tt 1.12).

Sejam tais conceitos idiossincráticos verdadeiros ou não, alguns estudiosos do Novo Testamento tenderam a vincular os problemas teológicos dos cretenses aos seus traços de personalidade. Segundo Tenney, “as perturbações em Creta tinham sido causadas pelo relaxamento moral resultante das tendencias naturais dos cretenses” (Tenney, 1995)

A tradição reconhece a ligação entre Tito e a(s) Igreja(s) em Creta. Segundo Becker “a igreja antiga venerava-o como missionário e primeiro bispo de Creta.” (Becker, 2007)

Fica claramente perceptível pela leitura da própria carta, que Paulo foi seu autor, e, como praticamente sempre, o mesmo escreveu a presenta carta para enfrentar uma situação imediata. Refletindo sua situação geográfica, aquela igreja era, segundo Barclay, “uma ilha num mar de paganismo” (Barclay, 2009). Apesar de muitos terem rejeitado a autoria paulina[2], os dados internos, (e.g. estilo literário e uso de palavras específicas), bem como as evidencias externas (e.g. a tradição dos pais apostólicos), corroboram para entendermos Paulo como o autor dessa epístola.

A epístola de Paulo a Tito inicia-se com uma saudação, contendo uma descrição da missão de Tito seguida pela descrição dessa missão (1:1-5). Após isso Paulo demonstra a Tito o caráter dos líderes que Tito deve estabelecer em cada igreja (1:6-16); após isso Paulo apresenta qual deve ser o caráter da pregação de Tito (2:1 – 3:11) seguindo com saudações finais comuns em todas as epistolas paulinas (3:12-15)

2.   Confirmando os limites da passagem

A passagem sujeita à análise exegética será Tito 2:11-14. O versículo 15 não foi incluída na perícope a ser estudada, por que pensamos que o mesmo faz parte de um inclúsio (i. e., “moldura textual”) juntamente com o versículo 1. Segundo J. Kõstenberger e Richard D. Patterson:

“Há uma técnica de composição literária semítica que é importante conhecer. O autor muitas vezes ordena o material de tal modo que, no final na narrativa, retorna a um tema, assunto ou palavras que mencionou no início. Essa técnica é conhecida por nomes como “emolduramento” (inglês, bookending) ou inclúsio. Além disso, J. T. Walsh observa que as subunidades dos registros (narrações) narrativos históricos podem ser organizadas simetricamente como sequências paralelas ou de tal maneira que a atenção se volte para o centro da narração.” (Kõstenberger & Patterson, 2015)

Isso fica perceptível pela repetição do termo λάλει, verbo, no tempo presente do imperativo na voz ativa, nos dois versículos (1,15). Dessa forma, segundo Towner, “Devido à mudança na gramática e à linguagem elevada, o leitor ou ouvinte saberá instintivamente que esta seção é crucial para o discurso” (Towner, 2005)

3.   Dominando a perícope em estudo

3.1.     Tradução provisória

“Manifestou-se, pois, a Graça de Deus, salvadora a todos os homens, que nos ensina a repudiar a impiedade e os desejos que marcam essa era presente, e nos ensina a viver de forma justa e piedosa nesse mundo de agora, enquanto aguardamos a abençoada esperança, isto é, a manifestação gloriosa do grande Deus e nosso salvador Jesus Cristo, o qual se deu a si mesmo por nós, para nos resgatar de toda iniquidade, além disso, purificar para si mesmo um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras” Tt 2:11-14

3.2.   Lista provisória de dificuldades exegéticas

i.                    A expressão “πaσιν άνθρώποις” no versículo 11 poderia ser traduzida como “cada homem?”, ou, “cada pessoa?”.

ii.                  A expressão do versículo 13, “την μακαρίαν έλπίδα και έπιφάνειαν”, seria melhor traduzida como “a abençoada esperança e a manifestação...” como duas expressões/apresentações distintas, ou seria melhor traduzida como “a abençoada esperançam que é a manifestação...”, de forma que a referência é a um e mesmo evento?

iii.                “έπιφάνειαν της δόξης” no versículo 13, seria melhor traduzido como genitivo atributivo (manifestação gloriosa) de forma a especificar um atributo ou qualidade inata dessa manifestação? Ou seria apenas um genitivo descritivo?

iv.                Ainda no versículo 13, poderíamos aplicar a regra de Granville-Sharp na expressão “έπιφάνειαν της δόξης του μεγάλου θεου και σωτflρος ήμων Ίησου Χριστου”? Poderíamos, assim, acharmos aqui um “texto-prova” a favor da deidade de Cristo e sua igualdade com Deus?

4.   Analisando a estrutura das frases e as relações sintáticas

4.1.        Fluxograma (Português)

 

Porque

a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos os homens

Ela nos educa para que,

vivamos neste mundo

renegadas a impiedade e as paixões mundanas,

sensata,

justa e

piedosa,
                                                                 aguardando

a bendita esperança e

a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo

Ele deu a si mesmo por nós, a fim de

nos remir de toda iniquidade e

purificar, para si mesmo, um povo

exclusivamente seu,

dedicado à prática de boas obras

4.2.        Fluxograma (Grego)

γὰρ 

Ἐπεφάνη   χάρις τοῦ Θεοῦ σωτήριος πᾶσιν ἀνθρώποις 

παιδεύουσα ἡμᾶς ἵνα 

ζήσωμεν ἐν τῷ νῦν αἰῶνι

ἀρνησάμενοι τὴν ἀσέβειαν καὶ τὰς κοσμικὰς ἐπιθυμίας 

σωφρόνως καὶ 

δικαίως καὶ 

εὐσεβῶς   

προσδεχόμενοι 

τὴν μακαρίαν ἐλπίδα καὶ 

ἐπιφάνειαν τῆς δόξης τοῦ μεγάλου Θεοῦ καὶ Σωτῆρος ἡμῶν Χριστοῦ Ἰησοῦ 

ὃς ἔδωκεν ἑαυτὸν ὑπὲρ ἡμῶν ἵνα 

λυτρώσηται ἡμᾶς ἀπὸ πάσης ἀνομίας καὶ 

καθαρίσῃ ἑαυτῷ λαὸν 

περιούσιον 

ζηλωτὴν καλῶν ἔργων

 

 


 

5.   Estabelecendo o texto

 

 

Análise

 

De acordo com NA28, temos as seguintes variações em σωτήριος (v.11), seguido pelo sinal ou seja, palavra transmitida com variantes.

i.       σωτήριος (salvadora – Adjetivo/ Predicativo Nominativo) x2, A, C, D, 0278, 1739, vg5t, Cl

ii.     σωτήρος (da salvação – genitivo atributivo, i.e., salvadora)   א, t, vgmss

iii.   του σωτήρος ήμων (da nossa salvação) – F, G, ar, b, vg.cl.ww co; Lcf

iv.   ή σωτήριος (a salvadora) – (C3), D1, K, L, P, Ψ, 33, 81, 104, 365, 630, 1241, 1505, 1881, M.

 

Segundo NA28, temos as seguintes variações em Ίησου Χριστου (v.13), palavras dentro de ⸂ ⸃ isto é, palavras transmitidas com variantes.

 

i.                    Ίησου Χριστου – (Jesus Cristo) – א (2), A, C, D, K, L, P, Ψ, 0278, 1739, 33, 81, 104, 365, 630, 1241, 1505, 1881, M, Lcf, Ambst Epiph.

ii.                  Χριστου Ίησου (Cristo Jesus) - א, F, G, b,

iii.                Ίησου (Jesus) – 1739

 

Devido a grande quantidade de testemunhas textuais bem como a antiguidade dessas, principalmente x2, A, C, D, (comum nas duas variantes em análise), entendemos, juntamente como NA28 e USB5, a opção “i” nas duas questões supracitadas, como representações do texto paulino autográfico.

 

6.   Análise Gramatical

 

 

11 Ἐπεφάνη γὰρ ἡ χάρις τοῦ θεοῦ σωτήριος πᾶσιν ἀνθρώποις 12 παιδεύουσα ἡμᾶς, ἵνα ἀρνησάμενοι τὴν ἀσέβειαν καὶ τὰς κοσμικὰς ἐπιθυμίας σωφρόνως καὶ δικαίως καὶ εὐσεβῶς ζήσωμεν ἐν τῷ νῦν αἰῶνι, 13 προσδεχόμενοι τὴν μακαρίαν ἐλπίδα καὶ ἐπιφάνειαν τῆς δόξης τοῦ μεγάλου θεοῦ καὶ σωτῆρος ἡμῶν Ἰησοῦ Χριστοῦ, 14 ὃς ἔδωκεν ἑαυτὸν ὑπὲρ ἡμῶν ἵνα λυτρώσηται ἡμᾶς ἀπὸ πάσης ἀνομίας καὶ καθαρίσῃ ἑαυτῷ λαὸν περιούσιον, ζηλωτὴν καλῶν ἔργων. [3]

Versículo 11

Ἐπεφάνη – Verbo, Aoristo, passivo, indicativo. O aoristo, "em suma, apresenta uma ocorrência, vista de fora, em sua totalidade, sem considerar a composição interna da ocorrência” (Fanning, 1991)[4], além disso, no indicativo, o aoristo normalmente indica tempo passado com referência ao tempo da enunciação (DW:555)[5], nesse caso particular, estamos diante de um Aoristo Constativo ou Global, informando-nos acerca de um fato: “a Graça de Deus foi manifestada...”, utilizamos o “foi” pois o verbo encontra-se na voz passiva, no entanto, sem uma Agência expressa, isso para dá ênfase ao sujeito, i.e. a Graça.

γὰρ – Conjunção. Segundo Wallace, “a característica primária das conjunções é relacionar unidades de pensamento entre si” (DW:667), nesse caso, Conjunção Inferencial; essa conjunção liga a lista parenética anterior com a apresentação do caráter educador da graça de Deus. “Esse uso oferece uma dedução, conclusão ou um sumario à discussão precedente” (DW:673)

- artigo, nominativo, singular, feminino. Esse é um Artigo com nomes Nominativos, o qual denota o Sujeito (DW:242). O artigo está denotando o sujeito, χάρις, nesse caso, personificando a Graça de Deus.

Χάρις – Substantivo, nominativo, singular, feminino. Esse nominativo faz aqui a função de sujeito explicito da oração.

τοῦ - artigo, genitivo, singular, masculino. Esse é, provavelmente um artigo de simples identificação no genitivo de possessão.

θεοῦ - Substantivo, genitivo, singular, masculino. O substantivo no genitivo possui a coisa a qual está relacionado. Isto é, de alguma forma o substantivo chave (nesse caso χάρις) é possuído pelo substantivo no genitivo.

σωτήριος – Adjetivo, nominativo, singular, feminino. Adjetivo ligado, normalmente, ao substantivo χάρις, caracterizando-o. A forma: artigo (ἡ), nome (χάρις) e adjetivo (σωτήριος), forma a segunda posição predicativa, ou seja, enuncia algo sobre o substantivo com a qual está ligado; dessa forma, aqui, “a ênfase parece ser igualmente colocada no substantivo e adjetivo ou levemente mais forte no substantivo.” (DW: 308).

πᾶσιν – Adjetivo, dativo, plural, masculino. Adjetivo Positivo. Dativo de Referência, ou seja, com referência a todos.  Referenciando todos os grupos elencados em 2:1-10. Segundo Robertson, este dativo com adjetivo “ocorre naturalmente. Esses adjetivos, como os substantivos, têm um sabor distintamente pessoal.” (Robertson, 1947)

ἀνθρώποις – substantivo, dativo, plural, masculino. Dativo Depois de Certos Adjetivos. Alguns adjetivos (no caso, πᾶσιν e σωτήριος), são seguidos pelo caso dativo. Mais uma vez, quando a ideia de interesse pessoal aparecer, o dativo será usado. (DW:174)

 

Versículo 12

Παιδεύουσα – verbo, presente, ativo, particípio, singular, nominativo, feminino. Relacionada à palavra Χάρις, predicando-a, ou seja, a graça [que] ensina/educa. Com referência ao aspecto, o tempo presente é interno, deforma que focaliza o desenvolvimento da ação. Assim, o caráter pedagógico da Graça é progressivo, de forma que, essa ação é descrita como estando em progresso, ou como acontecendo (DW: 516). Nesse caso temos um Presente Stricto Sensu.

ἡμᾶς – pronome pessoal, primeira pessoa, acusativo, plural. Temos aqui um "Nós" Inclusivo (DW:394), ou seja, Paulo e seus leitores/ouvintes. Como acusativo, indica o objeto imediato da ação do verbo Παιδεύουσα.

ἵνα – Conjunção. Trata-se de uma conjunção subordinada, visto que une uma cláusula dependente a uma independente ou a outra cláusula dependente, completando o sentido do verbo principal. (DW:667). É, além disso, uma conjunção final, i.e., indica o propósito da ação verbal (Παιδεύουσα).

ἀρνησάμενοι – verbo, aoristo, médio, particípio, plural, nominativo, masculino. Como verbo aoristo, “apresenta uma ocorrência, vista de fora, em sua totalidade, sem considerar a composição interna da ocorrência" (Fanning:554). Esse é um Aoristo Proléptico (Futurístico), ou seja, vê o “renegar” ou o “renunciar” como perfeito, do ponto de vista do fim. Sendo particípio, tem o verbo ζήσωμεν (“vivamos”) como principal, de tal forma, que a relação entre eles, segundo Wallace (DW:614) é de simultaneidade (vida de renúncia e abnegação).

τὴν – artigo, acusativo, singular, feminino. Artigo com Nomes abstrato, focalizando na qualidade (DW:226). Como acusativo, identifica o objeto direto do verbo “ἀρνησάμενοι”.

ἀσέβειαν – substantivo, acusativo, singular, feminino. Por ser acusativo, é o objeto direto de “ἀρνησάμενοι”.

καὶ - Conjunção. Identificada como uma conjunção conectivas, continuativa ou coordenada, conecta um elemento adicional complementando à sucessão do pensamento (DW:671). Além disso, conecta uma série dupla envolvendo “ἀσέβειαν” eκοσμικὰς ἐπιθυμίας”

τὰς – artigo, acusativo, plural, feminino. artigo, acusativo, singular, feminino. Artigo com nome abstrato, focalizando na qualidade (DW:226). Como acusativo, identifica o objeto direto do verbo “ἀρνησάμενοι” (verbo, aoristo, médio, particípio, plural, nominativo).

κοσμικὰς – adjetivo, acusativo, plural, feminino. Como adjetivo, é dependente de um outro nome, logo é adjetival, ou seja, modifica o substantivo seguinte, i.e., “ἐπιθυμίας”. Além disso, temos aqui um uso normal do adjetivo positivo, visto não haver nenhum comentário sobre qualquer objeto, senão sobre aquele que ele modifica. (DW:297).

ἐπιθυμίας – substantivo, acusativo, plural, feminino. Relacionado ao substantivo acusativo, singular, feminino, “ἀσέβειαν”, também relacionada ao verbo ἀρνησάμενοι.

τὰς κοσμικὰς ἐπιθυμίας – Aqui temos uma construção Artigo-Adjetivo-Substantivo, nomeada de Primeira Posição Atributiva, na qual "o adjetivo recebe maior ênfase que o nome" (Robertson:776)

σωφρόνως καὶ δικαίως καὶ εὐσεβῶς – Advérbios. Esses três advérbios qualificam o verbo “ζήσωμεν”, descrevendo o “Modo” de sua apresentação. Assim, vivamos (ζήσωμεν), de forma sensata, justa e piedosa.

καὶ - Conjunção. Presente na oração como uma conjunção que conecta os advérbios σωφρόνως, δικαίως e εὐσεβῶς.

Ζήσωμεν – verbo, aoristo, ativo, subjuntivo, primeira pessoa, plural. Como subjuntivo, esse verbo denota potencialidade de ação e intencionalidade volitiva, coincidindo com o imperativo. Mais especificamente, um Subjuntivo Exortativo (Volitivo), usado para exortar a si mesmo ou a alguém associado (DW:463 - 464). Como verbo aoristo, “apresenta uma ocorrência, vista de fora, em sua totalidade, sem considerar a composição interna da ocorrência" (Fanning:554), além disso, fora do indicativo e particípio (como esse caso), o tempo cronológico não é um aspecto do aoristo. (DW:555), ademais, é um Aoristo Constativo (Complexivo, Pontilear, Compreensivo, Global), enfatizando o fato da ocorrência, não sua natureza.

ἐν – Preposição. Como sempre, vem acompanhado do Dativo, que nesse caso é “τῷ νῦν αἰῶνι”, temos, assim, um uso Temporal da preposição ἐν, entendido como: em, dentro de, quando, enquanto, durante (DW:372), haja visto está relacionado à “Era Atual”

τῷ - Artigo, dativo, singular, masculino. Artigo Monádico e Dêitico visto está identificando “A Era Atual” como única e apresentando-a em contraste com a Era por vim, iniciada plenamente com a vinda bendita de Cristo (v. 13).

νῦν – adjetivo. Temos aqui um uso normal do adjetivo positivo, ou seja, “o adjetivo positivo não faz nenhum comentário sobre qualquer objeto, senão sobre aquele que ele modifica” (DW:297), além disso, τῷ νῦν αἰῶνι (construção Artigo-Adjetivo-Substantivo)

αἰῶνι – substantivo, dativo, singular, masculino. Temos aqui ἐν + dativo com o sentido de Tempo. O substantivo no dativo está descrevendo um período de tempo. Há aqui um contraste entre duas eras ou séculos. A Presente (νῦν) e a futura era aguardada (προσδεχόμενοι).

Versículo 13

Προσδεχόμενοι – verbo, presente, médio-passivo, particípio, plural, nominativo, masculino. Temos aqui um Presente Progressivo que, segundo Wallace, é usado para descrever uma cena em desenvolvimento (DW:518), sendo médio-passivo, dá a entender que, em vez de sofrer a ação do verbo, são os praticantes da ação (em relação a si mesmo). Estando relacionado ao verbo Ζήσωμεν (aoristo, ativo, subjuntivo), denota simultaneidade entre “viver” e “aguardar”.

τὴν –   artigo, acusativo, singular, feminino. Indica o objeto direto do verbo nominativo “προσδεχόμενοι”, podemos classifica-lo como artigo Por Excelência. Esse tipo de artigo é usado para apontar um substantivo que, em certo sentido, é "uma classe em si". É o único conhecido pelo nome (DW:222).

Μακαρίαν – adjetivo, acusativo, singular, feminino. Uso adjetival-normal do adjetivo, visto o mesmo está relacionado, unicamente, ao substantivo ἐλπίδα caracterizando-o.

ἐλπίδα – substantivo, acusativo, singular, feminino. Objeto direto do nominativo “προσδεχόμενοι”. O substantivo ἐλπίδα é caracterizado pelo adjetivo que o precede, Μακαρίαν, o qual recebe ênfase visto termos diante de nós a primeira posição atributiva.

τὴν μακαρίαν ἐλπίδαAqui temos uma construção Artigo-Adjetivo-Substantivo, nomeada de Primeira Posição Atributiva, na qual "o adjetivo recebe maior ênfase que o nome" (Robertson:776)

καὶ - Conjunção, lógico conectiva. Presente na oração como uma conjunção que conecta os substantivos ἐλπίδα e ἐπιφάνειαν. Traz o sentido de sucessão de pensamento.

ἐπιφάνειαν – substantivo, acusativo, singular, feminino. Objeto direto do nominativo “προσδεχόμενοι”.

τῆς – artigo, genitivo, singular, feminino. Artigo com nome abstrato, focalizando a qualidade desse substantivo, no caso, “δόξης” (DW:226). Como genitivo está diretamente conectado ao substantivo, também no genitivo, δόξης.

δόξης – substantivo, genitivo, singular, feminino. Uso do genitivo adjetival (visto estar caracterizando “ἐπιφάνειαν”). Dentre as várias subclasses do genitivo adjetival, δόξης parece melhor ser definido como genitivo atributivo ou, Genitivo Hebraico, Genitivo de Qualidade. Segundo Wallace, “o substantivo no genitivo (δόξης) especifica um atributo ou qualidade inata do substantivo principal (ἐπιφάνειαν). É semelhante a um simples adjetivo em sua força semântica, embora mais enfático”.

τοῦ - artigo, genitivo, singular, masculino.  Artigo com nome abstrato, focalizando a qualidade desse substantivo, no caso, “θεοῦ” (DW:226). Como genitivo está diretamente conectado ao substantivo, também no genitivo, θεοῦ.

μεγάλου – adjetivo, genitivo, singular, masculino. adjetivo, acusativo, singular, feminino. Uso adjetival-normal do adjetivo, visto o mesmo está relacionado, unicamente, ao substantivo θεοῦ caracterizando-o

θεοῦ - Substantivo, genitivo, singular, masculino. Em conexão com “μεγάλου”, temos aqui um Genitivo atribuído, no qual o adjetivo (μεγάλου) funciona como um atributo do termo no genitivo: Grandioso Deus.

καὶ - Conjunção, lógico conectiva. Expressa a ideia de continuidade de pensamento e descrição. Conecta θεοῦ e Ἰησοῦ Χριστοῦ.

σωτῆρος - Substantivo, genitivo, singular, masculino. Estamos diante de um Genitivo Atributivo ou Genitivo Hebraico ou Genitivo de Qualidade, que, segundo Wallace, “especifica um atributo ou qualidade inata do substantivo principal.” (Wallace, 2009), no caso, do substantivo Ἰησοῦ Χριστοῦ.

ἡμῶνpronome pessoal, primeira pessoa, genitivo, plural. Temos aqui um "Nosso" Inclusivo (DW:394), ou seja, Paulo e seus leitores/ouvintes.  Como genitivo indica a ideia de Posse.

Ἰησοῦ Χριστοῦ - Substantivo, genitivo, singular, masculino. Relacionado com “σωτῆρος”, temos aqui um Genitivo atribuído, no qual o substantivo (σωτῆρος) funciona como um adjetivo do termo no genitivo, Ἰησοῦ Χριστοῦ: Salvador Jesus Cristo.

τοῦ μεγάλου θεοῦ καὶ σωτῆρος ἡμῶν Ἰησοῦ Χριστοῦ - Temos aqui um artigo com dois Substantivos conectados pelo καὶ, o que configura a “regra de Granville-Sharp”[6]; de forma que, o substantivo “σωτῆρος” se relaciona a mesma pessoa expressa pelo primeiro substantivo (i.e., θεοῦ), assim, temos aqui uma afirmação explícita da deidade de Cristo.

Versículo 14

ὃς – pronome relativo, nominativo, singular, masculino. Retoma um termo anterior da oração, no caso, “Ἰησοῦ Χριστοῦ”, aplicando-o na oração seguinte: “se deu a si mesmo por nós”, ou seja, liga o nome à seguinte oração explicativa.

ἔδωκεν – verbo, aoristo, ativo, indicativo, terceira pessoa, singular. Como verbo aoristo, “apresenta uma ocorrência, vista de fora, em sua totalidade" (Fanning:554), também chamado de aoristo constativo, complexivo, pontilear, compreensivo ou global, enfatizando o fato em si.

ἑαυτὸν – pronome reflexivo, terceira pessoa, acusativo, singular, masculino. A força do reflexivo frequentemente indica que o sujeito é também o objeto da ação do verbo (DW:350), destaca-se aqui a participação total do sujeito (Jesus Cristo) na ação verbal (dar, conceder - ἔδωκεν).

ὑπὲρ – preposição. Com o genitivo “ἡμῶν”, a preposição ὑπὲρ, nesse caso pode representar vantagem, ou seja, em benefício de, por causa de, no entanto, também é possível a ideia de substituição, ou seja, “em lugar de”, também envolvendo a ideia de representação. (DW: 383). Ainda segundo Wallace, o sentido substitutivo da preposição ὑπὲρ é encontrado em abundância na literatura extra canônica, podendo ser visto, por exemplo, em Platão (A Republica 590 a.C) e Xenophon (Anabasis 7.4.9-10).

ἡμῶν – pronome pessoal, primeira pessoa, genitivo, plural. Temos aqui um "Nosso" Inclusivo (DW:394), ou seja, Paulo e seus leitores/ouvintes.  Como genitivo indica a ideia de Posse.

ἵναTrata-se de uma conjunção subordinada, visto que une uma cláusula dependente a uma independente ou a outra cláusula dependente, completando o sentido do verbo principal. (DW:667). É, além disso, uma conjunção final, i.e., indica o propósito da ação verbal (ἔδωκεν).

λυτρώσηται – verbo, aoristo, médio, subjuntivo, terceira pessoa, singular. O presente verbo no subjuntivo após a preposição ἵνα, faz parte da categoria mais comum do subjuntivo no NT (DW:471), subcategorizado como oração final com ἵνα, de propósito ou télico, respondendo à questão "Por que?". Como verbo aoristo, “apresenta uma ocorrência, vista de fora, em sua totalidade, sem considerar a composição interna da ocorrência" (Fanning:554).

ἡμᾶς – pronome pessoal, primeira pessoa, acusativo, plural. Temos aqui um "Nós" Inclusivo (DW:394), ou seja, Paulo e seus leitores/ouvintes. Como acusativo, indica o objeto imediato da ação do verbo “λυτρώσηται”.

ἀπὸ - preposição. Seu uso com o genitivo (somente), tem, nesse caso específico a ideia de separação. Intimamente relacionado ao verbo λυτρώσηται, nos dá noção de algo ativamente efetuado com referência à separação da “ἀνομίας” na conclusão do pensamento.

πάσης – adjetivo, genitivo, singular, feminino. Juntamente com o substantivo subsequente ἀνομίας, temos uma construção anarthra Adjetivo-Nome, além disso, é apresentado aqui o Comparativo usado como Elativo, no qual a qualidade expressa pelo adjetivo é intensificada, mas não é feita uma comparação (DW:300)

ἀνομίας – substantivo, genitivo, singular, feminino. O substantivo genitivo representa o objeto da ação do verbo λυτρώσηται.

καὶ - Conjunção, lógico conectiva. Expressa a ideia de continuidade de pensamento e descrição, conectando os verbos λυτρώσηται e καθαρίσῃ.

καθαρίσῃ - verbo, aoristo, ativo, subjuntivo, terceira pessoa, singular. Esse verbo continua, juntamente com λυτρώσηται ligado à preposição ἵνα, logo configura-se como subjuntivo após a preposição ἵνα, subcategorizado como oração final com ἵνα, de propósito ou télico, respondendo à questão "Por que?". Como verbo aoristo, “apresenta uma ocorrência, vista de fora, em sua totalidade, sem considerar a composição interna da ocorrência" (Fanning:554).

ἑαυτῷ - pronome reflexivo, terceira pessoa, dativo, singular, masculino. A força do reflexivo frequentemente indica que o sujeito é também o objeto da ação do verbo (DW:350), destaca-se aqui a participação total do sujeito (Jesus Cristo) na ação verbal (purificar).

λαὸν – substantivo, acusativo, singular, masculino. Como acusativo o substantivo é o objeto direto do pronome relativo ὃς que retoma ao substantivo Jesus Cristo.

περιούσιον – adjetivo, acusativo, singular, masculino. Intimamente relacionado ao substantivo anterior, λαὸν, temos uma construção anarthra Nome- Adjetivo na quarta posição atributiva.

ζηλωτὴν – substantivo, acusativo, singular, masculino. Temos aqui acusativo predicativo, no qual, um acusativo (substantivo ζηλωτὴν) predica algo sobre outro acusativo (DW:190), no caso λαὸν.

καλῶν – adjetivo, genitivo, plural, neutro. Está relacionado ao substantivo ἔργων, temos uma construção anarthra Adjetivo-Nome, além disso, é apresentado aqui o Comparativo usado como Elativo, no qual a qualidade expressa pelo adjetivo é intensificada, mas não é feita uma comparação (DW:300)

ἔργων – substantivo, genitivo, plural, neutro. Ligado ao substantivo λαὸν temos um genitivo de produto (i.e., que produz). O substantivo no genitivo (ἔργων) é o produto do substantivo com o qual ele está relacionado. No caso, povo [que produz] boas obras.

 

7.   Analisando Palavras Significativas

Tendo em vista que “as palavras funcionam em um contexto” (Stuart & Fee, 2008), analisaremos as palavras mais significativas para o entendimento da perícope em análise.

Ἐπεφάνη - ‘aparência, aparecimento’, ligado também a uma esplêndida aparência. Segundo Vicent, esse é um termo encontrado somente nas Pastorais, Lucas e em Atos (VINCENT, 1984). Em relação à transcendência, refere-se a uma manifestação visível e súbita de uma divindade oculta, seja na forma de uma aparição pessoal, ou por algum ato de poder ou comunicação oracular pela qual sua presença é conhecida. (BDAG: 431)[7]. Nesse sentido, falando a respeito da fé em conexão com επεφάνη, Goppelt diz: “não significa confiança em um taumaturgo [...], mas confiança na automanifestação de Deus através de Jesus” (GOPPELT, 2002). Com relação a nosso Senhor Jesus fala-se de sua primeira aparição na terra (2 Tm 1:10) e de sua manifestação do Grande Dia como visto em 1Tm 6:14,15. Concordamos com Fee no sentido de que muito provavelmente, o apóstolo esteja pensando na revelação histórica efetuada no evento salvífico de Cristo (v. 14; cf. 2 Tim. 1:9-10), mas também poderia estar se referindo “ao evento existencial ao tempo em Creta quando Paulo e Tito pregaram o evangelho e os cretenses entenderam e aceitaram sua mensagem” (Fee G. D., 1988). Segundo Mounce, “na LXX ἐπιφαίνειν é frequentemente usado para o aparecimento da face de Deus (Nm 6:25; Sl 30:17; 66: 2; 79:4, 8, 20; 117:27; 118:135). Aqui se refere à totalidade da vida de Cristo: desde a encarnação até a ressurreição e redenção (cf. Tito 3:4; 2Tm 1:9-10).” (Mounce, 2000).

Quando Paulo escreve a Tito que os crentes devem viver uma vida piedosa, enquanto aguardam “a bendita esperança e o aparecimento [επιφάνεια] da glória do nosso grande Deus e Salvador, Cristo Jesus” (Tt 2.13), o apóstolo tem em mente, segundo Erickson, o aspecto “da επιφάνεια como o objeto da esperança dos crentes. Um emprego semelhante do termo επιφάνεια pode ser encontrado em 1 Timóteo 6.14 e 2 Timóteo 4.8.” (Erickson, 2015)

Tudo isso confere ao evento-Cristo o caráter de uma incursão massiva do invisível, do divino na história humana visível. Além disso, não é simplesmente uma referência ao aparecimento de uma pessoa, mas sim a todo o evento salvífico que gira em torno dessa pessoa.

Χάρις – Muitos sentidos são possíveis para esse vocábulo per si. Podendo ser descrição de uma qualidade ou atratividade vencedora que convida a uma reação favorável, graciosidade, atratividade, charme, sedução – visto em Homero, Jos. e Ant. 2, 231. (BDAG: 1052). Também uma disposição benéfica para com alguém, favor, cuidado, ajuda e boa vontade.  De outra ordem é o subconjunto de reciprocidade conhecido como mecenato romano, em que se mantém claramente a superioridade do doador sobre o cliente. A ação de quem se oferece para fazer algo em benefício de outrem. Também, por metonímia, pode referir-se aquilo que traz o favor de alguém (de Deus) ou ganha uma resposta favorável de Deus. (BDAG: 1052). Conforme Vine, “estar em favor com é achar "graça” com” (por exemplo, At 2.47);” vemos muito isso no final de várias epístolas, onde Paulo deseja a "graça” de Deus aos leitores (por exemplo, Rm 1.7; 1 Co 1.3); neste sentido, “está correlacionado ao modo de saudação comum entre os gregos” (Vine, F. Unger, & White Jr., 2002). Já Carson (et all) entende que Paulo usa aqui o termo “Graça de Deus”, para “resumir todas as ações de Deus em nosso favor” (D. A. Carson; R. T. France, J. A. Motyer, G. J. Wenham, 2009). Segundo Mounce, “os versículos 11 e 12 constitui uma frase com χάρις, permanecendo como seu sujeito” (Mounce, 2000). Há vários paralelos e contrastes nestes versículos. A primeira vinda de Cristo é uma manifestação da graça de Deus (v 11); sua segunda vinda mostra a glória de Deus (v 13). De acordo com Guthrie, Paulo “não pôde encontrar um termo mais adequado do que este, expressivo como é da livre ação de Deus, ou seja, seu favor em Cristo ao lidar com o pecado do homem. É isso que dá à encarnação seu significado.” (Guthrie, 2009)

Σωτήριος - Libertação, preservação. Há, nos usos desse vocábulo no grego clássico, um foco especial no aspecto físico (Danker, 2010) Fala-se da libertação (ou Salvação) dos israelitas da escravidão egípcia (Josefo., Ant. 2, 331 e At 7:25). No AT, a raiz mais importante em hebraico é “yasha”, que significa Liberdade daquilo que prende ou restringe. Portanto, o verbo significa soltar, liberar, dar comprimento e largura a algo ou a alguém. (Dicionário Bíblico Wycliffe, p. 2001) A base dessa salvação se encontra na fidelidade de Deus. Mesmo que seu povo o tenha rejeitado e confiado na glória vã das nações, ele não abandonará o povo. Pelo contrário, ele vai atrás do povo para confortá-lo diante das tragédias que lhe sobrevieram e declara ao povo que seu pecado foi perdoado e ele foi restaurado ao favor divino. (Alexander, Rosner, Carson, & Goldsworthy, p. 339). Um sentido bíblico mais elevado é encontrado apenas na conexão com Jesus Cristo como Salvador, ou seja, esta salvação se faz conhecida e sentida no presente, mas será completamente divulgado no futuro. (BDAG: 967). No NT, esse termo só é encontrado em conexão com Jesus Cristo como Salvador. A salvação traz a justiça de Deus para o homem, quando este cumpre a condição de ter fé em Cristo (Rm 1.16, 17; 1 Co 1.21). A salvação baseia-se na morte de Cristo para a remissão dos pecados de acordo com os justos requisitos de um Deus santo e abençoador (Rm 3.21-26). As bênçãos da salvação incluem, basicamente, a redenção, a reconciliação, e a propiciação. (Dicionário Bíblico Wycliffe, p. 2001). Pelo fato de o adjetivo ser anartro, indica um adjetivo predicado, significando que "o favor de Deus apareceu com poder salvador" (KNIGHT, 2000). O que esta salvação implica será mais delineado nos vv. 12 e 14.

Παιδεύουσα – imperfeito. ἐπαίδευον; futuro. Παιδεύσω, aoristo. ἐπαίδευσα. Passivo futuro παιδευθήσομαι. Fornecer instrução para uma vida informada e responsável, educar, ajuda no desenvolvimento da capacidade de uma pessoa para fazer escolhas apropriadas e praticar a disciplina. (BDAG: p. 756). Qualifica ainda mais Χάρις, significando tanto "instruir" quanto "disciplinar". Embora ambos sejam possíveis aqui, o conceito mais amplo de instrução é mais provável por causa das instruções que se seguem (KNIGHT, p. 444). Segundo Carson et al., o livro de Tito, nesse ponto, traz “algo do que podemos chamar de função civilizadora do cristianismo” (Carson, Moo, & Morris, 2007). Como Aristóteles ensinava Alexandre, o Grande (McCarty, 2004), a Graça, em medida infinitamente maior, nos guia no caminho da justiça. Piper, ao refletir nesse texto a respeito do autocontrole, diz: “Como o Espírito produz esse fruto de domínio próprio em nós? Instruindo-nos na superior preciosidade da graça e capacitando-nos a ver e saborear (isto é, “confiar”) tudo o que Deus é para nós em Jesus.” (Piper, 2001)

ἀσέβειαν – Impiedade. O contrário de εὐσεβείᾳ como em 1 Timóteo 2:2. (VINCENT, 1984). Em geral, ἀσέβεια é entendido verticalmente como uma falta de reverência pela divindade e instituições sagradas, conforme exibido em palavras e atos sacrílegos: impiedade; seu corolário ἀδικία refere-se horizontalmente à violação dos direitos humanos. (BDAG: 214). Enquanto o termo “anomia” é fazer pouco caso ou desafiar as leis de Deus; o termo ἀσέβεια é a mesma atitude para com a Pessoa de Deus. (Vine, F. Unger, & White Jr., p. 704). Nesse caso, e usado acerca da impiedade em geral; resultado da operação educadora da graça, nos ensinando a renunciar toda e qualquer impiedade.

ἐλπίδα - Att. fut. ἐλπιῶ; 1. aor. ἤλπισα; pf. ἤλπικα. Ansiar por algo., com implicação de confiança sobre algo. vindo a passar; esperança. Ansiedade por algo. com algum motivo de confiança a respeito de realização, esperança, expectativa. (BDAG: 282). Uma outra nuança desse termo no contexto grego (Agathias Hist. 3, 5 p. 243f D.; En 103:11; Philo, Migr. Abr. 195) é de esperar por algo. tendo em conta as medidas que se toma para assegurar o cumprimento. (BDAG: 282), assim, essa esperança não seria totalmente passiva. no Novo Testamento, “expectativa favorável e confiante” (contraste na Septuaginta em Is 28.19, “uma má esperança”). Substantivo elpis e o verbo elpizo e seus derivados: ambas as palavras denotam, de um lado, o ato de "esperar", mas ambas também incluem a ideia do "objeto esperado". Tem a ver com o que nao se vê e o futuro (Rm 8.24,25). “Esperança” descreve: (a) a antecipação feliz do que e bom — o significado mais frequente (por exemplo, Tt 1.2; 1 Pe 1.21); (b) a base sobre a qual a “esperança” e fundamentada (At 16.19; Cl 1.27, “Cristo em vos, esperança da gloria”); (c) o objeto no qual a “esperança” e estabelecida (por exemplo, 1 Tm 1.1). (Vine, F. Unger, & White Jr., 2002). No NT, essa palavra nunca indica uma antecipação vaga ou temerosa, mas, sim, sempre a expectativa de alguma coisa boa; as vezes se refere ao objeto sobre o qual se coloca a esperança. Em muitas passagens, elpis denota, não a atitude pessoal, mas, sim, o benefício objetivo da salvação na direção da qual se dirige a esperança, como aqui em Tt 2:13. (Hoffmann, 2000)

αἰῶνι – “Era, idade” (a ser relacionada com aei. “sempre”, em vez de ser ligada a ao “respirar”). significa um período de duração indefinida, ou tempo considerado em relação ao que acontece no período (Vine, F. Unger, & White Jr., 2002, p. 604). Refere-se a um longo período de tempo, há muito tempo ou a um período de tempo sem começo nem fim, um tempo eterno de Deus. Há um possível sentido de “antes do tempo começar” 2 Tm 1:9; Tt 1:2 - nessas duas passagens a preposição tem o conteúdo semântico de prioridade. (BDAG: p. 120). Como adjetivo, aiõnios, que denota “eterno”, é colocado em contraste com proskairos, literalmente, “durante uma temporada, por algum tempo” (2 Co 4.18). A força ligada à palavra não é tanto a duração concreta de certo período, mas um período marcado por características espirituais ou morais. Isto está ilustrado no uso do adjetivo na expressão “vida eterna” (Jo 17.3). (Vine, F. Unger, & White Jr., 2002). A expressão "presente século" entesoura a crença judaico-cristã de que a presente ordem está sob o domínio dos poderes malignos, que serão derrotados quando Deus estabelecer seu reino. (Kelly J. N., 2009)

λυτρώσηται – λύτρον significa preço de libertação, resgate (especialmente o dinheiro do resgate para a alforria de escravos). Λυτρόομαι, já traz o sentido da ação de libertar pagando um resgate, resgatar. Libertar de uma situação opressiva, libertar, resgatar, redimir. (BDAG: 537). Apresenta uma figura de compra (VINCENT, p. 897). Literalmente, "meio de soltar” visto está derivado de luo. “soltar”. (Vine, F. Unger, & White Jr., 2002). A linguagem usada relembra LXX SI 129:8 (“É ele quer redime a Israel de todas as suas iniquidades”). No Novo Testamento, ocorre em Mt 20.28 e Mc 10.45. onde e usado acerca do dom de Cristo de Si mesmo como “resgate de muitos”. Alguns interpretes consideraram que o preço de “resgate” foi pago a Satanás. “Também denominada Christus Victor, esta teoria define a expiação de Cristo como a realização de uma vitória sobre as forças cósmicas do pecado, da morte, do mal, e de Satanás” (Riccardi, 2016); outros, a um poder impessoal como a morte ou o mal. Tais ideias são altamente conjeturais. No entanto, podemos afirmar que a morte e a ressurreição de Cristo venceram a morte e resgataram os pecadores, mas nós temos que fazer a qualificação de que aquele resgate foi pago a Deus e não a Satanás. (Riccardi, 2016); A cláusula ἵνα indica com dois verbos e uma frase conclusiva o propósito ou resultado pretendido da entrega de Jesus de si mesmo. O resultado pretendido é "para que ele possa nos redimir de toda ação ilegal". (KNIGHT, 2000). De acordo com Bavinck, “Essa palavra também é iluminada por todos aqueles textos do Novo Testamento em que o sofrimento e a morte de Cristo são apresentados como um um preço de grande valor (ICo 6.20; 7.23; IPe 1.18-19) pelo qual os crentes foram redimidos ou resgatados (lTm 2.6, Lc 24.21; Tt 2.14; IPe 1.18; G1 3.13; 4.5).” (Bavinck, 2012) Na base de todas essas expressões está a ideia de que, por natureza, os seres humanos se encontram sob a escravidão do pecado e que só são libertos dessa escravidão pelo resgate de alto valor do sangue de Cristo.

λαὸν περιούσιον – Povo Exclusivo. As palavras que se traduzem um povo “exclusivamente seu” são empregadas em LXX (Êx 19:5; 23:22; Dt 7:6; 14:2; 26:18), onde denotam o povo que Deus redimiu e que é, portanto, “peculiar” para Ele. A frase foi originalmente aplicada ao povo de Israel, mas é aplicada aqui para os crentes no Messias - judeus e gentios (VINCENT, p. 897).  Para o conceito da Igreja como o novo Israel Fp 3:3 e 1 Pe 2:9-10 são um bom exemplo. (Kelly J. N., 2006). Περιούσιον também significa possuído acima de tudo, isto é, especialmente selecionado para o próprio; isentos das leis ordinárias de distribuição. Daí corretamente representada por peculiar, derivada de peculium, uma bolsa particular, uma aquisição especial de um membro de uma família distinta da propriedade administrada para o bem de toda a família. Assim, o sentido é dado em Efésios 1:14, onde se diz que os crentes foram selados “εἰς ἀπολύτρωσιν τῆς περιποιήσεως” com vistas à redenção da posse, ou redenção que dará posse, portanto, aquisição. (VINCENT, p. 897).  Neste caso, Paulo oferece duas razões para Cristo dar: 1. Ele mesmo, por nós, correspondendo à resposta ética "de mão dupla" no versículo 12. Ele reflete a imagem do Êxodo, onde Deus redimiu seu povo ao libertá-los do Egito. Primeiro, ele morreu para nos redimir (NVI, RSV; “resgatar-nos”) de toda maldade (um paralelo verbal direto à LXX, Sal. 129:8). Isso corresponde à renúncia dos crentes "à impiedade e às paixões mundanas" no décimo segundo versículo. 2. Ele morreu para purificar para si um povo que é seu. Grande parte dessa linguagem é verbalmente dependente, também de Ezequiel 37:23 (de acordo com a LXX). Novamente, Paulo se apropriou da linguagem usada do povo de Deus no AT para o novo povo de Deus (cf. 1:1). (Fee G. D., 1988)

ζηλωτήν - “zeloso”, está ligado a λαόν, “povo”, agindo como um título, e a palavra pode ser seguida pelo genitivo da pessoa (Atos 22:3) ou coisa (Atos 21:20; 1 Coríntios 14: 12; 1 Pe 3:13). “A pessoa que é um ζηλωτὴν καλῶν ἔργων, “fanático por boas ações”, contrasta com os oponentes cretenses, que são impróprios para qualquer boa ação” (Mounce, 2000). O zelo do crente não vem de uma aceitação intelectual da filosofia helenística, mas de uma compreensão plena da obra redentora de Cristo. ζηλωτής, “zeloso”, é usado em outros lugares de Deus sendo um Deus zeloso (Êx 20:5; 34:14; Dt 4:24; 5:9; 6:15; Nn 1:2), do zelo de Paulo por Deus ( Atos 22:3) e a lei (Atos 21:20; Gl 1:14; cf. Fp 3:6;), e do zelo de um cristão pelos dons espirituais (1Co 14:12; cf. 14:1) e os bons (1Pe 3:13; cf. substantivo cognato ζῆλος, “zelo”, e verbo ζηλοῦν, “manifestar zelo”).

 

8.   Contexto Histórico-Cultural em Geral

Já nos Séc. I e II a.C, Roma estendia a sua soberania a um vasto campo geográfico e político, a sua “maquinaria governamental começava-se a se desenvolver” no sistema provincial. A aquisição de províncias feito por Roma começou com a Sicília, conquistada a Cartago na primeira guerra Púnica, 264-241 a.C. O imperador Pompeu anexou a Cilicia e Creta em 63 a.C.  (Tenney, 1995)

A palavra latina província, de que derivou “província”, significa originalmente o encargo de prosseguir com a guerra, ou um posto de comando. Aplicada às autoridades de um general estendia-se à sua esfera de autoridade, e por isso ao território conquistado por ele, que se tornava a sua província. Quando Roma conquistou novos domínios, estes foram organizados em províncias que se tornaram parte do sistema geral imperial. (Tenney, 1995) Foi nessa conjuntura e estrutura política que o evangelho chegou em Creta.

A única visita à ilha que é conhecida é aquela descrita em Atos 27, quando o navio que o transportava a Roma foi velejando pelo seu litoral. (Kelly J. N., 2006), Paulo foi para a Macedônia e talvez navegasse daí para Creta, que visitara na sua viagem para Roma. Nesta ocasião passou algum tempo ali, mas deixou Tito atrás para completar o estabelecimento da igreja. Dessa forma, como era de seu costume, Paulo deixa Tito em Creta para estruturar as igrejas daquela localidade.

Já desde o início de sua história registrada havia muitas cidades na ilha, levando-se em conta seu tamanho minúsculo. Se pudermos crer na Odisseia de Homero (lib. xix.v. 172-179), contava com noventa cidades naqueles tempos tão remotos, embora outras fontes informativas falem até em cem cidades. Nos dias do apóstolo Paulo, o número de judeus ali habitantes era grande, provavelmente devido à sua importância comercial. As localidades mencionadas nas páginas do N.T., pertencentes àquela ilha, são Bons Portos (um porto marítimo) e a cidade de Laséia, nas proximidades de acordo com Atos 27:8.

Paulo havia deixado Tito na Ilha de Creta “para que pusesses em ordem as coisas restantes, bem como, em cada cidade, constituísses presbíteros” (Tt 1:5 – ARA). Segundo Gundry, o Apóstolo “escreveu esta epístola quando estava em Nicópolis, na costa ocidental da Grécia. Endereçou-a a Tito, a quem deixara na ilha de Creta, a fim de organizar a igreja local dali.” (Gundry, 1998). Assim como nas cartas a Timóteo, o apóstolo adverte no tocante aos mestres falsos e dá instruções acerca da conduta conveniente de várias classes de cristãos.

As igrejas não tinham prédios próprios nos dias de Paulo e, em geral, se reuniam nas casas de membros prósperos. Algumas dessas casas podiam acomodar, na sala principal (atrium) ou num jardim com colunata (perístylium) mais atrás na casa (Ems, 1989, p. 139-45, 144 – citado Reid (Reid, 2012)), uma congregação de cem a duzentas pessoas em pé. Essa era a estrutura das igrejas em Creta, ambiente em que se os falsos mestres se infiltravam e difamavam a Paulo bem como ensinavam falsos ensinos. A Admoestação a Tito é de que “esses falsos mestres devem ser silenciados” (Tt 1.11), enquanto as pessoas que desejem segui-los devem ser “repreendidas” (1.13). (Fee & Stuart, 2013.).

A situação em Creta era desanimadora. A igreja estava desorganizada e os seus membros tinham um comportamento absolutamente descuidado. Por isso, Tito deve ensinar, exortar, reprovar e ordenar, ensinar a sã doutrina, instruindo os anciãos a observar seu comportamento e permanecer sãos na fé, no amor e na perseverança. “Os homens mais jovens devem cultivar a virtude do autocontrole, particularmente à luz dos vícios espalhafatosos de Creta. Tito deve dar um exemplo positivo.” (Wright & Bird, 2019)

A respeito da presença do Judaísmo na Ilha de Creta, o filósofo helenista Judeu Filo fala da diáspora como o resultado positivo da colonização do mundo habitado pela nação judaica (Green & McDonald, 2013). Uma perspectiva interessante de um membro de um povo (perpetuamente) colonizado. Segundo Filo: “Não só os continentes estão cheios de colônias judaicas. Assim são as ilhas mais conhecidas, Eubeia, Chipre e Creta. (Philo, Legat. 281-82)”[8]

Os judeus da diáspora continuaram a exibir uma alta reverência pela pátria, internalizada a partir do papel de Jerusalém, Sião e Judá nas Sagradas Escrituras. (Green & McDonald, 2013), dessa forma muitas sinagogas foram abertas em todo o mundo conhecido. Podemos supor que uma mentalidade veterotestamentário era fortemente presente.

O comissionamento de Paulo a Tito era para “que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam, e de cidade em cidade estabelecesses presbíteros, como já [Paulo] te mandei” (1:5). Segundo Robert A. Wild, “esta estrutura eclesial foi emprestada do judaísmo” (Brown, Fitzmyer, & Murphy, 2011). A oração “Como te prescrevi”, denota que a autoridade de Paulo, insiste o autor, fundamenta esta instituição. Assim, visto que a igreja nascera em solo Judeu, seus primeiros membros e líderes eram Judeus, seu Senhor era Judeu, e tendo em vista que ela se via como cumprimento das Escrituras Judaicas e como o verdadeiro povo Judeu de Deus, logo, como salienta John Piper, é de se esperar que a igreja, “iria de algumas formas modelar sua vida e estrutura na vida e estrutura do povo de Deus no Velho Testamento, do qual eles eram agora a verdadeira posteridade.” (Piper, Anciãos (Presbíteros) Cristãos no Novo Testamento, 1976). Em geral, então, podemos dizer que, embora ao longo da longa história de Israel o papel do ancião sem dúvida tenha mudado, eles eram os anciãos da comunidade que, por causa de sua sabedoria no conselho e da honra natural que lhes era devida tornaram-se os administradores oficiais ou líderes da comunidade. (Piper, Anciãos (Presbíteros) Cristãos no Novo Testamento, 1976).

Segundo Towner, com relação ao uso do Antigo Testamento em Tito, existe uma metáfora da “lavagem /purificação” relativos à aliança do AT em Tito 2.14c, ligados pelo termo precedente anomia: “... e purificar para si um povo todo seu”, o que, de acordo com Towner é a “única importante interação com o AT” (Towner, 2014), ainda segundo Towner,  “a metáfora, da purificação leva alguns a pensar no batismo, mas o sentido é o de purificação cultual que no AT já designava figuradamente a ação de Deus para purificar seu povo, de modo que pudesse ser seu povo.” ” (Towner, 2014). Dessa forma, tendo em vista um público judaico, ou bem ciente da literatura judaica, podemos saber como essa mensagem fora entendida pelos ouvintes primários.

O contexto socio cultural romano também é perceptível. De acordo com Koester, “o comportamento cristão recomendado aqui (2:12) é idêntico aos deveres e virtudes sociais e morais gerais esperados de qualquer cidadão íntegro da época, e eles de fato fazem parte de listas de exigências pagãs para profissões como as de general ou de ator. Numa formulação sintética, eles são expressos assim: "Abandonar a impiedade e as paixões mundanas, e viver neste mundo com autodomínio, justiça e piedade" (Tt 2,12).” (Koester, 2005)

A respeito da ação divina da manifestação da graça de Deus (v.11), Towner diz: O pano de fundo pluriforme da linguagem da epifania (...) figurou significativamente no discurso religioso e político helenístico e especialmente imperial - de deuses, heróis e especialmente do imperador - e foi descritivo dos atos de YHWH na LXX.” (Towner, 2005). Dessa forma há uma mescla das ideias de pré-existência de Cristo, manifestação divina para salvar (já preparando para a declaração explícita da divindade de Cristo em seguida e a visitação real.

 

 

9.   Determinando as Características Formais da Epístola

A carta de Paulo a Tito tinha a objetivo de instruí-lo na missão de completar o trabalho iniciado na Ilha de Creta. A reputação dos cretenses não era boa como se percebe no famoso dito de Epimênides: “Os cretenses são sempre mentirosos, bestas ruins, ventres preguiçosos” (1:12). Sobre o trabalho de discipulado que Tito teria de desenvolver em Creta, Calvino Comenta:

“Ο teor geral dessa passagem é que ‘os cretenses eram um povo falso e em seu caráter associado à ferocidade das bestas selvagens com a luxúria dos domésticos’. (...) O apóstolo, que costumava tratar com suavidade os que mereciam a máxima severidade, não teria tratado os cretenses com tanta aspereza sem uma razão plausível. Pois, que pior reprimenda pode haver que lançar deprimentes acusações contra aqueles que são preguiçosos, feras imprestáveis, glutões ociosos? Tampouco são tais vícios lançados contra uns poucos indivíduos, mas contra toda uma nação condenada.” (Calvino, 1549)

Hendriksen aponta um tríplice propósito na mente de Paulo quando da escrita dessa carta: “(1) Insistir com Tito a ir ter com Paulo em Nicópolis, assim que um substituto houvesse assumido o trabalho em Creta (3.12). (2) Encaminhar Zenas, o intérprete da lei, e Apoio, o evangelista eloquente (3.13). (3) Ministrar diretrizes para a promoção do espírito de santificação nas relações congregacionais, individuais, familiares e sociais.” (Hendriksen, 2001), um pouco antes em seu comentário, esse mesmo comentarista acusa, como objetivo de Paulo, a necessidade de “fechar a boca de indivíduos contumazes, loquazes fúteis e enganadores” (Hendriksen, 2001).

Dessa forma, a presente epístola apresenta características de um manual geral de instruções eclesiásticas, orientando a respeito do discipulado, da disciplina eclesiástica, da ordenação de oficiais bem como, de acordo com o costume paulino, uma excelente exposição das bases teológicas para as advertências e instruções.

A perícope sob análise (i.e. 2:11-14) encontra-se no corpo da carta e é um excelente exemplo da apresentação das bases teológicas para as advertências e instruções tanto precedentes quanto subsequentes. De acordo com Mounce, “em um corpus que enfatiza os aspectos práticos do cristianismo, esses versículos fornecem uma base teológica firme para a prática correta.” (Mounce, 2000). Towner pode ser incluído aqui como complemento ao afirmar que “esta seção é uma declaração de teologia densamente empacotada que, de certa forma, marca o ponto alto retórico da carta. Devido à mudança na gramática e à linguagem elevada, o leitor ou ouvinte saberá instintivamente que esta seção é crucial para o discurso de Paulo” (Towner, 2005)

 

10.       Examinando o Contexto Histórico em Particular

Apesar da má fama dos moradores daquela pequena Ilha “mentirosos, bestas ruins, ventres preguiçosos”, resumidos por Kelly como “a falsidade, a grosseria, e a gula do grupo dissidente em Creta” (Kelly J. N., 2009), a graça de Deus se manifestou para salvá-los, e, ao usar a expressão “manifestação” usa uma metáfora. Dessa forma, “a metáfora subjacente é aquela do repentino irromper da luz, como na aurora.” (Kelly J. N., 2009).

A esperança da manifestação luminosa da Salvação proveniente de Deus era latente na mentalidade Judaica e Paulo parece estar validando essa esperança. Há muitas e variadas evidência de que os judeus eram numerosos em Creta.  (Josefo, Antiq. XVII. 327; Bell. Iud ii. 103; Filo, Leg. ad Gaium 282). Josefo comenta que “[Aristóbulo] foi a Creta, persuadiu ali todos os judeus com os quais falou, tirou-lhes dinheiro e depois passou à ilha de Meios, onde acreditando que ele era sangue real, deram-lhe ainda muita atenção.” (Josefo, Séc. I - II). Assim reminiscências da esperança veterotestamentária com certeza veio à mente dos ouvintes, quanto ouviram. Logo, os mesmos entenderam que “a graça derramou sobre o mundo a santa Luz de Cristo. Então nasceu o sol da justiça "trazendo cura em suas asas” (Ml 4:2). A graça de Deus apareceu salvadora a todos os homens” (Hendriksen, 2001).

Além da confirmação da esperança messiânica expressa em 2:11-14, a presente perícope constitui-se para os cretenses, a resposta divina ao problema genético[9] (ou genealógico) dos mesmos. Cristo poderia torná-los uma “Nova Criatura” (2 Co 5:17). Paulo enfatiza o caráter educador do evangelho na mudança de todos, sem distinções.

Mounce observa características helenísticas e judaicas na presente perícope. Segundo esse autor:

“A linguagem é decididamente helenística porque Paulo está contrastando a aparência do verdadeiro salvador com ideias helenísticas, especialmente adoração ao imperador. No entanto, muitos dos termos e ideias estão profundamente enraizados no AT e no próprio pensamento de Paulo, e em firme contraste com o ideal helenístico de educação que resulta em virtude; a vida cristã virtuosa está firmemente fundamentada na obra redentora de Cristo.” (Mounce, 2000)

Por fim, constantemente usado pelos autores neotestamentários como estímulo à vida piedosa, é a segunda vinda (1Co 15:58, 1Jo 3:1ss).  A expressão “aguardar” modifica o viver diário presente. Segundo Calvino, Paulo vê na escatologia a “base para sua exortação; (...) ela [a doutrina da segunda vinda] não pode senão levar-nos a devotar-nos integralmente a Deus. Em contrapartida, aqueles que não cessam de viver para o mundo e para a carne não têm a menor noção da importância da promessa da vida eterna.” (Calvino, 1549)

 

11.       Determinando o Contexto Literário

Para melhor entendermos o objetivo de Paulo, faz-se necessário analisarmos o fluxo do argumento desde o inicio da epístola até o exato momento em que nossa perícope é iniciada.

I.                   A saudação de Paulo revelando sua atitude quanto ao ministério e sua apreciação por Tito (1.1-4).

II.                O estabelecimento de igrejas maduras nas quais a doutrina é confirmada pela vida depende da presença ativa de liderança espiritualmente qualificada (1.5-16).

a.       As responsabilidades de Tito em Creta são definidas: o aperfeiçoamento das igrejas e a indicação de liderança qualificada

b.      Como presbíteros em Creta precisam ser:

                                                                          i.      Precisam ter reputação irrepreensível (1.6a).

                                                                       ii.      Precisam ser exemplos de fidelidade conjugal (1.6b).

                                                                     iii.      Precisam ter filhos obedientes (1.6c).

                                                                      iv.      Precisam estar acima de qualquer repreensão porque são despenseiros de Deus (1.7a).

                                                                        v.      Precisam ser humildes (1.7b).

                                                                      vi.      Precisam ser mansos (1.7c).

                                                                   vii.      Precisam ser moderados (1.7d).

                                                                 viii.      Precisam ser pacíficos (1.7e).

                                                                      ix.      Precisam ser honestos (1.7f).

                                                                        x.      Precisam ser hospitaleiros (1.8a).

                                                                      xi.      Precisam ser estimuladores à boa conduta (1.8b).

                                                                   xii.      Precisam ser sensíveis (1.8c).

                                                                 xiii.      Precisam ser justos (1.8d).

                                                                  xiv.      Precisam ser santos em sua conduta (1.8e).

                                                                    xv.      Precisam ter domínio de si (1.8f).

                                                                  xvi.      Precisam ser doutrinariamente sãos (1.9).

c.       A missão dos presbíteros em potencial é “refutar eficazmente as doutrinas de falsos mestres e confrontar o erro para que os crentes sejam sadios em sua crença (1.10-16).” (Pinto, 2005)

III.             O estabelecimento de igrejas maduras, nas quais a doutrina é confirmada pela vida, depende da prática de boas obras por parte de cada crente por meio da graciosa capacitação de Deus (2.1–3.11).

a.       O dever de Tito é traduzir a doutrina sadia para a prática sadia nas vidas de grupos diferentes na igreja cretense por meio do ensino e do exemplo (2.1-10).

b.      A capacitação de Tito para o ministério era o poder transformador da graça divina manifestada por meio da vida, morte, ressurreição e retorno glorioso de Jesus Cristo (2.11-14).

c.       O dever de Tito é preparar os crentes a viver vidas excelentes e proveitosas na sociedade, à luz da misericórdia de Deus em suas vidas (3.1-8).

d.      O dever de Tito é proteger a igreja da fé vazia rejeitando debates infrutíferos e lançando fora falsos mestres que provocam divisão (3.9-11).

IV.             Os planos de Paulo para Tito (3.12-14).

V.                Saudações e ações de graça (3.15).

 

Assim vemos que nossa perícope (III, b) trata exatamente do Poder disponibilizado por Deus, por meio de Cristo, através do qual tanto Tito, em sua função de líder, quanto os Cretenses, em sua caminhada cristã, podem obedecer à vontade de Deus.

Assim entendida, a passagem teológica fornece a base para o ensino ético que fora estabelecido (2,1-10). Só agora o que foi prescrito deve ser visto claramente como uma operação da graça, intrinsecamente ligada à morte de Cristo e ao novo modo de vida associado a esse evento.

 

12.       Considerando os contextos bíblicos e teológicos mais amplos

Temos diante de nós um texto teologicamente rico, de forma que, muitos dogmas cristãos são facilmente observáveis em Tito 2:11-14. Segundo Towner, “esta seção é uma declaração de teologia densamente empacotada que, de certa forma, marca o ponto alto retórico da carta.” (Towner, 2005)

Em primeiro lugar temos a ideia da manifestação da Graça de Deus. A graça é, segundo Erickson, “um atributo que faz parte dos diversos aspectos do amor de Deus” (Erickson, 2015). Com isso Deus age com os homens não com base naquilo que eles merecem, ou em seu valor, mas simplesmente de acordo com as necessidades deles, com base na bondade e generosidade divinas.

De acordo com Berkhof, “a Bíblia geralmente emprega a palavra Χάρις para indicar a imerecida bondade ou amor de Deus aos que perderam o direito a ela e, por natureza, estão sob a sentença de condenação.” (Berkhof, 2019), coaduna-se com isso o texto de Efésios 2:8, “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.” Dessa forma, a graça de Deus é a fonte de todas as bênçãos espirituais concedidas aos pecadores.

Em segundo lugar, a doutrina da Divindade de Cristo é afirmada de forma clara. Tanto Tt 2.13 quanto 2Pe 1.1 têm notas marginais na rsv nas quais se alude a Jesus como outra pessoa que não “Deus”, não sendo, portanto, chamado Deus. De acordo com Grudem, “essas traduções alternativas são gramaticalmente possíveis, mas improváveis. Os dois versículos têm a mesma construção em grego, na qual um artigo definido rege dois substantivos unidos pela palavra grega que significa e (kai).”  (Grudem, 2011). Seguindo a regra de Granville-Sharp, Grudem conclui, “em todos os casos em que essa construção é encontrada, i. e, dois substantivos unidos pela palavra grega “e” (kai), considera-se que os dois substantivos estão unidos de algum modo, e muitas vezes são dois nomes distintos para a mesma pessoa ou coisa.” (Grudem, 2011)

Jesus nunca fez reivindicação explícita e aberta de divindade, como “Eu sou Deus”. Encontramos, no entanto, declarações que seriam inadequadas se fossem feitas por alguém menor que Deus. Por exemplo, Jesus disse que enviaria “seus anjos” (Mt 13.41); em outras passagens, eles são mencionados como “os anjos de Deus” (Lc 12.8,9; 15.10). Em outro local: “O Filho do homem enviará seus anjos, e eles ajuntarão do seu reino tudo que serve de tropeço, e os que praticam o mal”. Esse reino é repetidamente citado como sendo o reino de Deus, mesmo no Evangelho de Mateus (Mt 12.28,19.24; 21.31,43).

Os autores do NT atribuem o termo κύριος (“Senhor”) a Jesus, termo esse que, na LXX “era a tradução comum do nome יהרה (Javé) e do termo de reverência א ת י (Adonai)” (Erickson, 2015). Além disso, κύριος usado no NT para designar tanto Deus, o Pai, o Deus soberano (e.g., Mt 1.20; 9.38; 11.25; At 17.24; Ap 4.11), quanto Jesus (e.g., Lc 2.11; Jo 20.28; At 10.36; ICo 2.8; Fp 2.11; Tg2.1; Ap 19.16). Robinson comenta que, quando Jesus “é tratado como o Senhor exaltado, ele é identificado com Deus a ponto de haver ambiguidade em alguns trechos, não ficando claro se a menção é ao Pai ou ao Filho em textos como At 1.24; 2.47; 8.39; 9.31; 11.21; 13.10-12; 16.14; 20.19; 21.14; cf. 18.26; Rm 14.11)” (Robinson, 1960)

Por fim, a doutrina da Segunda Vinda de Cristo também salta aos nossos olhos quando lemos que “[A graça] nos ensina a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver de maneira sensata, justa e piedosa nesta era presente, enquanto aguardamos a bendita esperança: a gloriosa manifestação de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo.” (Tt 2:12,13). Tal ensino é claro em toda a sagrada escritura, desde o “Dia do Senhor” no Antigo testamento (Is 24:21, Sf 1:14-18, Jr 46:10), até as referências à Revelação, Retorno e Aparecimento de Jesus Cristo como expresso no Novo Testamento. (Mc 13.32,33,35; Mt 24.36-44, ITs 4.16, At 1.11).

O Catecismo de Heidelberg inclui um eco de Tito 2:13 em sua declaração de esperança apocalíptica: "[em] toda minha dor e perseguição eu levanto minha cabeça e aguardo ansiosamente como juiz do céu a mesma pessoa que antes se submeteu para o julgamento de Deus por minha causa, e removeu toda a maldição de mim [Lucas 21:28; Rm 8:22–25; Fil. 3:20, 21; Tito 2:13, 14]. Ele lançará todos os Seus e meus inimigos em condenação eterna, mas Ele levará a mim e a todos os Seus escolhidos para Si mesmo na alegria e glória celestiais [Mt. 25:31–46; 1 Tes. 4:16, 17; 2 Tess. 1:6–10]” (Twomey, 2009)

 

 

13.       Conclusão

Da análise acima percebemos a característica marcante em Paulo: o comportamento e as considerações doutrinárias nunca estão longe em sua discussão. Em uma declaração concisa Paulo enfatiza tanto a encarnação e a expiação e a relação dessas doutrinas com a segunda vinda de Cristo. Dessa forma aprendemos que é realmente impossível viver com domínio próprio para além da graça de Deus e que o autocontrole não pode ser alcançado através do auto esforço sozinho a parte do Filho de Deus. A partir dessa verdade, percebemos o quanto a ética cristã dista do estoicismo e de outras filosofias que valorizam a ética per se, pelo contrário a doutrina permanece como a base tanto pra fé como para o viver.

Percebemos o quão dista da verdade bíblica uma doutrina que superenfatiza a graça a ponto de destituí-la da santificação progressiva na vida. Essa graça não é a graça salvífica de nosso Senhor Jesus Cristo, mas uma “graça barata” nas palavras de Bonhoeffer. Segundo esse autor:

"A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, é o batismo sem a disciplina de uma congregação, é a Ceia do Senhor sem confissão dos pecados, é a absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem a cruz, a graça sem Jesus Cristo vivo, encarnado”. (Bonhoeffer, 2016)

Além disso, a escatologia nunca pode levar a um interesse meramente futurístico e especulativo do tipo: “Que fazia Deus antes de criar o céu e a terra?[10]” pelo contrário, a doutrina das ultimas coisas devem despertar em nós tanto esperança quanto o desejo de viver de forma a agradar Aquele perante o qual nos colocaremos um dia.

Relacionando a esperança da Vinda de Cristo com a prática de boas obras e santificação, Lutero diz:

“A nossa vida deve ser tão modesta perante nós mesmos, o próximo e Deus, a ponto de podemos esperar com toda a segurança a vinda de nosso Senhor. (...) Se o marido cumpre as obras que lhe competem e se a esposa ama o seu marido e cuida da casa também eles podem esperar com toda segurança a vinda pois sabem, com absoluta certeza, de que agradam a Deus. Semelhantemente, o orador ou o pregador preocupado com o seu ofício está seguro e absolutamente certo de que serve a Deus, etc., ainda que satanás invista efetivamente contra ele. Nenhum membro do clero é capaz disso. Uma criada, porém, pode dizer: "Eu lavei as panelas, fiz fogo no forno, etc., estendi a cama", etc. Ela espera a vinda com confiança, porque fez essas obras que, seguramente, agradam a Deus na fé em Cristo. Assim sucede cm o filho que obedece ao pai. Se este o manda estudar, ele estuda e pensa: "E a ordem do meu pai, e agrada a Deus". Assim, a doutrina de Deus é ornada pela nossa vida, porém não para que sejamos justificados por isso. E grandioso o fato de [Deus] querer dar a vida eterna por causa da lavagem das panelas! Mas não é exatamente assim. Porém, ele a dá àquelas pessoas que viveram dessa forma, aguardando a vinda de Cristo: Não temais, pequenino rebanho(Lutero, 1527 e 1535)

Muitos textos neotestamentários trazem essa verdade – de que a graça salvadora de Deus educa moralmente os seres humanos, capacitando-os a fazerem a vontade de Deus – no entanto, não de forma tão clara como na presente perícope. Há nisso, grande conforto para o cristão que ama ao Senhor, vive para sua glória e aguarda seu retorno bendito.

 

 

 

 

 

 

 

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[1] Seguimos os 15 passos conforme apresentado no manual de exegese neotestamentária de Gordon D. Fee. e Douglas Stuart. (Stuart & Fee, 2008)

[2] “No século 19 (1807, para ser exato), F. Shleiermacher rejeitou a autoria paulina de 1 Timóteo. F. C. Baur, em sua obra sobre as Epístolas Pastorais (Stuttgart e Tübingen, 1835), defendia a posição de que é inconsistente aceitar 2 Timóteo e Tito e rejeitar 1 Timóteo. As três deviam ser consideradas como literatura pseudo-epigráfica. Muitos discípulos entusiastas - a Escola de Tübingen - endossaram seu ponto de vista. Hoje essa posição é aceita por muitos, ainda que alguns tenham adotado um ponto de vista um pouco mais conservador” (Hendriksen, 2001)

[3] Michael W. Holmes, The Greek New Testament: SBL Edition (Lexham Press; Society of Biblical Literature, 2011–2013), Tt 2.11–14. (Holmes, 2011–2013)

 

[4] (Fanning, Verbal Aspect in New Testament Greek, 1991)

[5] (Wallace, Gramática Grega: Uma Sintaxe Exegética do Novo Testamento, 2009)

[6] “Quando a partícula Kai conectar dois nomes no mesmo caso, [ou seja, nomes (substantivo, adjetivos ou particípios) de descrição pessoal, referindo-se a oficio, dignidade, afinidade ou conexão, atributos, propriedades, ou qualidade boas ou mas], e se o artigo o, ou qualquer uma de suas formas declináveis, preceder o primeiro nome ou particípio, e se nao repetir-se antes do segundo nome ou particípio, o ultimo sempre se relacionara a mesma pessoa expressa ou descrida pelo primeiro nome ou particípio. Ou seja, denotará outra descrição ao nome inicialmente citado” (Citado em Wallace, Daniel. Gramática Grega: Uma Sintaxe Exegética do Novo Testamento. 2009. Pág. 324)

[7] (Danker, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature, 2010)

[8] Tradução de E. Mary Smallwood, Philonis Alexandrini: Legatio ad Gaium (Leiden: Brill, 1970).

[9] Uso aqui “problema genético” não no sentido biológico e científico atual, visto ser isso um anacronismo descarado. Decidir em utilizar esse termo para enfatizar os pecados de caráter sócio moral fortemente presentes nos cretenses perpassados de pai para filho.

[10] Faço aqui referência ao Livro XI Cap. XII das Confissões de Agostinho de Hipona, o qual, ao questionamento “que fazia Deus antes de criar o céu e a terra?”, responde: “não responderei jocosamente como alguém para contornar a dificuldade do problema: “Preparava o inferno para os que perscrutam esses mistérios profundos”. – Uma coisa é compreender e outra é brincar. Não, essa não será minha resposta. Prefiro dizer: “Não sei” – pois de fato não sei, que ridicularizar quem faz pergunta tão profunda, ou louvar quem responde com sofismas.” (Agostinho, 2017)

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