Manuscritologia do Novo Testamento – História, Correntes Textuais e o Final do Evangelho de Marcos. - Uma resenha da obra de ANGLADA, Paulo Roberto Batista
RESENHA
Nessa obra, o autor trata das questões referentes às
críticas textuais, principalmente com relação as variantes textuais,
perceptíveis em algumas edições bíblicas por meio de colchetes. Assim,
delimitando e apresentando o assunto geral do livro, Paulo Anglada diz: “Por Manuscritologia
do Novo Testamento designa-se, aqui, a disciplina geralmente conhecida como Critica
Textual do Novo Testamento –anteriormente
chamada baixa crítica, em contraste com a alta crítica, que diz
respeito a estudos de caráter histórico-literários, logicamente antecedentes.”
(pág. 1), dessa forma, o objetivo é tratar das variantes textuais, ou seja, as
diferenças existentes entre os mais diversos manuscritos existentes do novo
testamento.
Vemos nessa obra um diálogo perspicaz a respeito das três
principais escolas textuais do Novo Testamento – as que sustentam o Textus Receptus
(Escola tradicional), os textos críticos (Westcott e Hort) e o Texto Majoritário,
e a partir dessa análise, uma consideração oportuna a respeito da autenticidade
dos versículos finais de Marcos.
O assunto abordado é de extrema necessidade e importância,
tendo em vista que, desde um sermão no domingo até a mais erudita das exegeses,
utiliza-se da crítica textual e, dependendo da escola abraçada pelo intérprete
o resultado final é alterado drasticamente. No entanto, cremos, juntamente com
Paulo Anglada, que Deus é soberano até mesmo sobre os acontecimentos da
história humana intencionando o cumprimento da Sua vontade em relação ao seu
Texto Sagrado.
Toda a temática do presente trabalho gira em torno de uma
problemática: os textos intitulados “autógrafos”, isto é, os textos copiados
pelos autores neotestamentários, não mais existirem; o que nos restou foram
manuscritos (milhares, diga-se de passagem), e através dessas cópias é possível
a reconstrução de quase a totalidade do texto original.
Em relação à escassez de manuscritos do Novo Testamento
datados dos primeiros três séculos da era cristã (em comparação aos períodos
posteriores), o autor apresenta duas justificativas demasiadamente
satisfatórias: as perseguições constantes, onde houvera a queima de muitos
manuscritos; e, a utilização do papiro como o material usado, sendo o mesmo de
fácil deterioração. Sobre a melhor preservação e maior quantidade dos
manuscritos na Idade média, o autor diz:
Nesse período da história
textual do Novo Testamento (Séculos V-XV), o material predominantemente usado
para a escrita, o papiro, foi substituído pelo pergaminho. Apesar de o papiro
continuar a ser produzido e utilizado até a introdução do papel, pelos árabes,
no Oriente Médio, no século XIII, a grande maioria dos manuscritos preservados
do Novo Testamento, do quarto ao décimo quarto século, está escrita em
pergaminho. (pág. 13)
Após isso, o autor nos apresenta um detalhado apanhado
histórico das diversas edições, publicações e apanhados dos diversos textos
gregos, bem como nos apresenta uma “linha do tempo da evolução dos textos
críticos e seus aparatos.
O Textus Receptus é a descrição que se dá às primeiras
impressões do texto grego, representando os manuscritos bizantino e tradicional;
“Erasmo, Ximenes, Beza, Stephanus e demais editores do Textus Receptus lançaram
mão dos manuscritos a que tinham acesso e consideravam mais representativos do
texto em uso pela Igreja na época. Não conhecendo os milhares de manuscritos
hoje disponíveis, eles não tinham como posicionar-se, nem a favor do texto hoje
conhecido como Textus Receptus, nem a favor do texto
realmente majoritário.” (Pág. 70). Muitos, atualmente, segundo Anglada, têm
empreendido uma defesa vigorosa do texto supracitado. Segundo o autor, “Os
defensores do Textus Receptus, não apenas admitem a validade da doutrina da
preservação como pressuposição teológica, mas constroem suas teorias históricas
com base na concepção que sustentam da doutrina, sem dar a devida consideração às
evidências históricas disponíveis.” (Pág. 71)
Já os defensores do Texto Majoritário são os que acreditam
que o texto original é exatamente aquele texto que é apresentado na maioria dos
manuscritos, no entanto a maioria dos autores que apoiam tal ideia reconhecem
que “a providência de Deus, com relação ao texto do Novo Testamento, inclui a
coleta e comparação de manuscritos, a elaboração de teorias textuais, e o
emprego de metodologias que permitam uma avaliação apropriada das evidências
históricas” (Pág. 72), enquanto que os defensores do Textus
Receptus desconsideram qualquer atividade com esse fim, por
acreditarem que, com isso, a doutrina da preservação das escrituras é negada.
Dos Textos Ecléticos, que é considerada como a
principal corrente manuscritológica do Novo Testamento, a qual tem estado em
voga desde o final do século XIX, Anglada nos diz o seguinte:
“esta corrente defende que o texto original do Novo Testamento, ou o
arquétipo mais antigo a que se pode chegar, deve ser reconstruído
ecleticamente, a partir, especialmente, dos manuscritos da família Alexandrina,
por meio da metodologia crítica fundamentada na obra daqueles críticos textuais
ingleses.” (Pág. 77)
A respeito do Texto Majoritária, o autor nos diz: “Ela
sustenta o texto representado na maioria dos manuscritos, conhecido como Texto Majoritário,
Bizantino, Sírio, Tradicional ou Eclesiástico. Essa corrente defende que o
texto original do Novo Testamento deve ser buscado, não em alguma edição mais
ou menos empírica do Textus Receptus, nem exclusivamente
em uns poucos manuscritos egípcios antigos preservados aleatoriamente, mas na
grande massa de manuscritos existentes, incluindo papiros, unciais, minúsculos,
lecionários, versões e citações.” (Pág. 95), e fica claramente demonstrado,
nesse ponto da obra, que o autor da mesma pretendera uma defesa do Texto
Majoritário, de forma a afirmar que “os proponentes do Texto Majoritário, de
modo geral, professam que o Espírito Santo, o autor primário das Escrituras,
dirigiu, guiou e supervisionou de tal maneira os autores bíblicos que, sem
violar as suas personalidades, garantiu o registro fiel e perfeito de tudo o
que Deus julgou necessário incluir no cânon bíblico.” (Pág. 97)
Por fim, há uma defesa convincente do final longo de Marcos,
constantemente negada por muitos críticos liberais e até mesmo ortodoxos.
O presente livro tem características fortemente acadêmicas,
de forma que é necessário um conhecimento prévio de alguns temas da Crítica
Textual para facilitar na compreensão do presente livro. No entanto,
recomendamos o livro para pastores e seminaristas; com certeza será um ótimo
guia nessa empreitada textual.
ANGLADA,
Paulo Roberto Batista. Manuscritologia do Novo Testamento – História, Correntes Textuais e o Final
do Evangelho de Marcos. Knox Publicações, 2014
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