Fundamentos da Teologia Histórica - Resenha do Livro de Alderi de Sousa Matos

 

Fundamentos da Teologia Histórica - Resenha do Livro  de Alderi de Sousa Matos 


De forma simples, com linguagem acessível, mas sem deixar a perspicácia e didática, o Rev. Alderi De Sousa Matos em seu livro Fundamentos da Teologia Histórica nos apresenta os principais personagens e seu pensar teológico no decorrer da história da Igreja.

Alderi De Sousa Matos é ministro presbiteriano desde janeiro de 1975 e historiador oficial da IPB. Também leciona na Universidade Presbiteriana Mackenzie e no Seminário Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição.[1]

O livro Fundamentos da Teologia Histórica é de muita utilidade para não-especialistas, seminaristas, pastores, professores de escola bíblica dominical e demais crentes em Cristo. De forma concisa e simples, essa obra nos apresenta um conteúdo que, na maioria das vezes é repassado em obras volumosas e com linguagem muito rebuscada.

Além disso, a obra toca um assunto de extrema utilidade e relevância para o cristão: O pensamento cristão desenvolvido ao longo do tempo, de forma que é possível a identificação do crente de hoje com todos os cristãos que viveram nos séculos passados, “além disso, o movimento cristão tem uma longa e rica trajetória que precisa ser conhecida pelos fiéis de todas as gerações”; desde a época da Reforma Protestante, no século XVI, tornou-se fundamental saber o que era autenticamente cristão com base na continuidade com essa tradição cristã; tudo, claro, com prudência e equilíbrio.

O livro trata da Teologia Histórica, ou seja, o ramo da teologia que analisa as doutrinas cristãs, mais precisamente o seu desenvolvimento ao longo dos séculos, seus pensadores e as filosofias e eventos históricos que serviram como fatores influenciadores. Ademais, a Teologia Histórica oferece informações sobre os pontos fortes e fracos das muitas e diferentes abordagens ao pensar cristão, sendo uma ferramenta crítica pois “permite ver as falhas, as limitações e os condicionamentos de certas formulações doutrinárias, o que possibilita seu contínuo aperfeiçoamento.”

A Teologia Cristã não se desenvolveu “no vácuo”, pelo contrário, muitos fatores (filosofias, eventos históricos) impactaram diretamente no pensamento teológico cristão; surgiu por razões práticas e respondendo a controvérsias e desafios internos e externos que exigiam uma resposta da igreja. Vemos também que as formulações doutrinárias vão se aprimorando no decorrer dos séculos. De forma cronológica, o Rev. Alderi De Sousa Matos apresenta-nos o pensar cristão ao longo da era cristã.

No período Antigo percebemos o impacto da filosofia platônica em diversos pais e doutores da igreja antiga, principalmente o seu conceito de Logos; o conceito da matéria física, temporal e mutável como inferior; a existência do mundo dos universais e muitos outros conceitos platônicos que são facilmente percebidos nos escritos dos primeiros teólogos cristãos.

Devido o sincretismo com o platonismo e com muitas outras filosofias (como o zoroastrismo), surgiram muitas correntes de pensamento pseudocristãs que competiram frontalmente pelo direito à ortodoxia. O principal deles foi o gnosticismo que trouxe muitos prejuízos à fé, sendo direta e vigorosamente confrontado pelos primeiros pais como Irineu de Lion e Tertuliano.

Os gnósticos produziram muitos escritos na forma de evangelhos pseudônimos e epístolas apócrifos, com o fito de propagarem suas ideias docéticas (o corpo do Senhor como apenas uma ilusão) a respeito de Cristo.  

De acordo com Alderi de S. Matos, o estoicismo[2] foi outra filosofia que influenciou o cristianismo, sendo percebido nos escritos dos primeiros autores da teologia cristã. Com sua ênfase no rigor ético, o estoicismo atraiu os olhares de muitos líderes cristãos, tendo em vista o precário nível moral em que a sociedade estava imergida. 

Os primeiros pensadores cristãos a respeito da teologia foram os Pais apostólicos, primeiro conjunto de literatura cristã ortodoxa pós-apostólica escritos até meados do segundo século, com autores conhecidos e anônimos.

Os apologistas foram os próximos pensadores da teologia cristã. Mas profundos em suas reflexões que os Pais apostólicos, eles desenvolveram no século II, linhas de argumentação filosófico-teológicas para a defesa da fé cristã tanto para com inimigos externos (apologistas, propriamente dito) nas acusações populares informais e acusações de eruditos, quanto para com inimigos internos (polemistas) que apresentaram uma 2ª via no pensar cristão que mais tarde se manifestou heterodoxa.

De forma sucinta, sem deixar de ser profunda, o autor apresenta as principais controvérsias que foram ponte para o desenvolvimento das principais doutrinas como Cristologia e Trindade; para as formulações dos credos e para a organização dos concílios ecumênicos. Foram nessas grandes controvérsias que grandes homens como Atanásio e Agostinho de Hipona surgiram, mas também, foram em decorrência de controvérsias que divisões (como o Grande Cisma) ocorreram.

 O período Medieval, termo cunhado por autores Renascentistas talvez com objetivo depreciativo, foi um período da história que se inicia no século V, logo após a queda do Império Romano do Ocidente, e termina no século XV, com a conquista de Constantinopla pelo Império Turco-Otomano. Foi um período marcado pela síntese da herança romana com a cultura dos povos bárbaros que invadiram o Império Romano.

O período medieval não pode ser considerado como “período das trevas”, graças ao Escolasticismo, significando um movimento proporcionador de “florescimento da reflexão teológica e filosófica, além de forte dinamismo em muitas outras áreas”.  Dentre os pensadores desse período, temos Tomás de Aquino, Anselmo, Duns Scottus e Pedro Aberlado.

Foi o Renascimento, com sua ideia de ad fontes, ou seja, retorno às fontes, que os escritos gregos e clássicos começaram a ser estudados. Dentre eles, os Textos originais gregos do Novo Testamento. Assim, homens como Erasmo de Roterdã, debruçaram-se sobre manuscritos do Novo testamento grego, por meio do qual, viram que muitos dos ensinos romanistas eram baseados em traduções duvidosas.

O Renascimento e o humanismo se mesclam como fatores de influencia para a Reforma protestante. Movimento esse, já latente há décadas (com os pré-reformadores) e que teve seu estopim com as 95 teses mostrando os abusos da Igreja católica, principalmente no que tange à prática das indulgencia, pela baixa moral dos clérigos e contra todo o sistema penitencial Católico-Romano que dificilmente é amparado pelas escrituras do monge agostiniano Martinho Lutero.

A reforma protestante teve sua reverberação Magistral (reformada e luterana), na Inglaterra (anglicana) e, no que ficou conhecido como A ala Radical, ou esquerdista da reforma (Os anabatistas). Muitos e impressionantes são os resultados da reforma protestante nas camadas sociais de todo o mundo ocidental, desde a economia até a educação.

Segundo o Rev. Alderi De Sousa Matos, “a Era moderna começou com o Advento do Iluminismo, movimento que marcou uma profunda transição no pensamento [...] teológico cristão”, o intelecto se tornou o arbitro, a isso deu-se o nome de racionalismo que afetou muito o pensamento cristão principalmente de forma aversa, tendo e vista que surgiram grupos religiosos (como os Pietistas Místicos) que desconsideraram a razão em resposta ao outro extremo do racionalismo. No entanto nesse período surge Jonathan Edwards, grande teólogo, que argumentou contra os dois extremos.

Por fim, sob a influencia do existencialismo, comunismo, materialismo e sentimentalismo, a era contemporânea apresenta-se com muitas filosofias e teologias com forte caráter social. O liberalismo, com pressupostos antisobrenaturalista, nega tudo de miraculoso na fé, claramente sustentado pela tradição ao longo das eras da igreja.

Resta-nos agradecer a Deus por essa obra, que de maneira tão clara e simples, nos passa informações tão importantes para a igreja local.





Fortaleza, 16/03/2022


Leandro Monte Alves

Acadêmico de Teologia

Escola Teológica Charles Spurgeon


[1] https://cpaj.mackenzie.br/professores/alderi-souza-de-matos/

[2] Os filósofos estoicos se reuniam originalmente sob o Pórtico Pintado (em grego: Στοά Ποικίλη; romaniz.: Stoá Poikíle), daí a denominação de Στωϊκός, transl. stoikós ou "filósofos do pórtico". As preleções aconteciam sob esses pórticos porque Zenão, o líder fundador da escola, não sendo ateniense mas um fenício de Chipre, não podia ter a propriedade de uma casa.


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