Resposta ao Arianismo e a importância soteriológica da divindade de Cristo

Resposta ao Arianismo e a importância  soteriológica da divindade de Cristo


Leandro Monte Alves

 Acadêmico de Teologia 

Escola teológica Charles Spurgeon


      A conversão de Constantino no século quarto e sua profunda influência na igreja cristã deu às controvérsias teológicas um forte caráter político, visto que o cristianismo era tido como um dispositivo unificador do governo. Segundo Justo González, "para Constantino, o cristianismo poderia ser o cimento do império", ou seja, aquilo que iria impedir uma rápida e inevitável desintegração do mesmo. 

      Nesse contexto surge a figura de Ário que viveu em cerca de 265 a 356 DC na igreja de Alexandria como presbítero na mesma. Segundo Russel Norman Champlin, "Ário desenvolveu sua doutrina com base em especulações teológicas gregas que floresceram no gnosticismo"; dessa forma a filosofia rebuscada e especulativa de Ário era uma forte atração para as mentes estudadas naquela época e região; além disso, possuidor de grande carisma e perspicácia poética, Ario levava consigo muitos seguidores. Quando Constantino toma conhecimento do raciocínio Ariano, temendo uma divisão no império, decide intervir convocando o que seria o primeiro concílio ecumênico ou geral: O Concílio de Nicéia em 325 DC. 

    Os pontos a seguir são significativos para a compreensão que Ário tinha de Cristo. Primeiramente, como em todo erro teológico, há um excessivo apego a um aspecto da verdade em detrimento de outro ou dos outros aspectos da verdade. Ignorando a pluralidade de pessoas na divindade, Ario apega-se veementemente ao monoteísmo judaico-cristão; dessa forma, Jesus Cristo, o logos encarnado, seria inferior a Deus, embora superior às demais criatura. 

Em segundo lugar, apenas Deus-Pai é o verdadeiro Deus, agennetos, isto é, não gerado. O logos (Cristo) seria um intermediário entre Deus e o homem, que fora criado antes do tempo. De acordo com Gregg R. Allison, "Ario acreditava que Deus, sendo um e somente um, nunca poderia compartilhar o seu ser com outra pessoa ou coisa, fazer isso significaria que haveria dois deuses, mas por definição Deus é absolutamente único; além disso, esse Deus eterno e não gerado criou um filho. Assim o filho é um ser criado”. 

Em terceiro lugar, Ário faz uma distinção com respeito a "Incapacidade de Saber", ou seja, o filho não poderia conhecer ao Pai devido a este (O Pai) ser de natureza transcendente e inacessível. Segundo Alister McGrath, "Esta importante afirmação repousa sobre a radical distinção entre o Pai e o Filho. Tal é a distinção estabelecida entre eles, que o Filho por si mesmo não pode conhecer o Pai. Em comum com todas as outras criaturas, o Filho é dependente da Graça de Deus, se ele (o Filho) tiver de executar a função, qualquer que seja ela, que lhe for atribuída. 

      São considerações como essas que levaram os críticos de Ário a defender que, no âmbito da revelação e da salvação, o Filho está precisamente na mesma posição que as outras criaturas" Por fim, apesar de enfatizar a distinção essencial de Deus e do Logos, Ario ressalta a superioridade de Cristo em relação às outras criaturas; o Filho é um uma "perfeita criatura". Ário encontrou oposição em Cirilo, bispo de Alexandria primeiramente, e em Atanásio, posteriormente. Focalizaremos no segundo, em sua resposta ortodoxa, por questões de brevidade. Tanto em sua obra "Contra os Arianos", como em sua vida de sofrimentos por causa da verdade, Atanásio mostrou-se um valente defensor da ortodoxia.

      Em primeiro lugar, Atanásio argumenta que somente Deus é capaz de salvar e somente Deus pode destruir as correntes do pecado e nos dá a vida eterna. Apenas o Criador Deus pode salvar sua criação. Assim, Atanásio destrói o argumento ariano.

      Usando uma espécie de silogismo básico, Atanásio prova a validade do seu argumento, como segue:

 1. Somente Deus pode salvar 

2. Jesus Cristo salva 

3. Portanto Jesus Cristo é Deus 

O segundo argumento repetido e defendido por muitos atualmente tem como um dos principais proponentes Atanásio, e é o fato de que os cristãos adoram e oram a Jesus Cristo. Conforme Atanásio, os cristãos são proibidos de prestar tal reverência a qualquer pessoa ou coisa que não seja Deus. 

 Assim, caso os arianos estejam corretos, os cristãos não arianos são acusados de idolatria; do contrário caso os demais cristãos estejam corretos, os arianos são acusados de não reconhecer Deus em sua plenitude. A partir de agora propomos uma gama de evidências em favor da deidade de Cristo. 

Há fortes evidências que comprovam a divindade do Filho de Deus sendo a Segunda Pessoa da Trindade Santa e Bendita. A primeira evidência é que alguns nomes divinos lhe são atribuídos; ele é tratado como Filho de Deus e "Filho" em um sentido especial único. Em um aspecto Jesus é filho primogênito, mas em outro, unigênito. Ele também é descrito como o "primeiro e o último" o "alfa e o ômega"; também descrito como o "Senhor" como "Senhor meu e Deus meu" conforme Tomé. Importantíssimo ressaltar a respeito de nomenclaturas atribuídas a Cristo. Vários nomes que, no Velho Testamento são atribuídos a Deus pai, no Novo Testamento são atribuídos a Jesus Cristo: a verificação desses detalhes prova de modo cabal que Jesus Cristo é divino.

 Outro forte conjunto de evidências é que a Bíblia também lhe confere atributos que são próprios de Deus, como: onipotência, onisciência, onipresença, eternidade, imutabilidade e pré-existência. Além disso, vemos que ele não hesitou em perdoar pecados, em reivindicar autoridade de ressuscitar mortos, de reivindicar juízo presente e futuro; e não se revoltou quando adorado por outros seres humanos ou por seres espirituais, como os demônios. Sumariando, "Nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade" (Cl 2:9). 

Outro elemento evidencial da divindade de Cristo consiste na maneira como os nomes de Deus pai, Jesus Cristo, Filho e o Espírito Santo são postos nas sagradas escrituras. Normalmente Os Três aparecem de forma conjugada. Diga-se de passagem, que a ordem não é sempre a mesma; há cartas ou livros em que a ordem é: Pai, Filho e Espírito Santo; em outros: Pai, Espírito Santo e Filho; e em outros: Espírito, Pai e Filho de forma que, essencial e ontologicamente, as três pessoas da Trindade são iguais.

 Atualmente, as Testemunhas de Jeová são as representantes mais conhecidas do ensino ariano; o são ignorando os terríveis impactos que a negação da deidade de Cristo tem para a doutrina da Salvação. Segundo Alister McGrath, "A distinção kantiana entre ding-an-sich (“ a coisa em si”) e sua percepção, mostra que não podemos conhecer as coisas diretamente, mas apenas à medida que possamos percebê-las ou entender seu impacto", de forma que há uma profunda relação entre "o que Jesus é" e sua obra. Vários são os desdobramentos da divindade de Cristo em relação a nossa salvação.

 Em primeiro lugar, o Deus infinito arcou com as penas dos pecados cometidos por homens pecadores. Os nossos pecados feriram a honra de Deus. Rebelamo-nos e nos revoltamos contra a justa justiça, sendo inevitável que a justa punição divina recaia sobre nossas cabeças; no entanto Deus mesmo, o único que poderia nos salvar, "se fez carne", e nos redimiu; o "Deus conosco", Jesus; e possui esse nome por que "salvará o seu povo de seus pecados". 

Em segundo lugar, temos diante de nós Nosso Mediador, Jesus, aquele que nos representa diante de Deus, por que é homem; e pode representar Deus diante dos homens por que É Deus.

 Em terceiro lugar, é em Cristo Jesus que vemos ao Pai, "quem vê a mim, vê o pai" disse Jesus. O Senhor nos revelou a Deus. Aquele que habita em "Luz inacessível", aquele que "homem algum viu" nem é capaz de ver, foi revelado pelo "filho unigênito do pai, esse o revelou". 

Por fim, não devemos nos deter apenas a esses argumentos. A visão geral das escrituras é mais forte que a soma de cada parte; conforme Martyn Lloyd-Jones: "Estivemos contemplando a maravilha e o mistério dos séculos, aquilo que torna os anjos celestiais atônitos, aquilo que eles perscrutam - Deus vindo em carne para os pecadores vis, desprezíveis e rebeldes contra Deus - continue a vislumbra-lo, considerá-lo, a confiar nele. 

Examinemos e avaliemos nossas vidas não pelo prisma de sentimentos, mas pelo prisma de nosso conhecimento dele e de nosso amor por ele. Ele é o centro de tudo". 


Bibliografia 

MCGRATH, Alister. Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica. 6ª Ed. Shedd Publicações. 2016. 

GONZALES, Justo. Uma História do Pensamento Cristão. 1ª Ed. Cultura Cristã. 2004.

 CHAMPLIN, Russel Norman. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. 13ª Ed. Hagnos. 2015. 

LLOYD-JONES, Martin. Doutrinas Bíblicas Vol. 2 – Deus, o Pai. Deus, o Filho. 1ª Ed. PES. 1996

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